#TerçaQueen: No auge, Sasha Zimmer fala sobre carreira, preconceito e vida “out of drag”

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Novidade no Pheeno! Toda terça, no nosso canal Gente, teremos o quadro #TerçaQueen, em homenagem à hashtag #TransformationTuesday, com objetivo de divulgar e enaltecer o trabalho das maravilhosas drag queens nacionais que temos. Na estreia, conversamos com a veterana e vencedora do Academia de Drags Sasha Zimmer. De mudança para São Paulo, ela rebateu críticas sobre o trabalho de impersonators/covers e ainda falou sobre carreira, preconceito, sua relação com a dança e vida out of drag.

Pheeno: Por que você decidiu começar a se montar? Foi já pensando em fazer carreira ou apenas por hobby?

Sasha Zimmer: Tudo começou muito no acaso. Surgiu um concurso em minha cidade (Limeira, interior de São Paulo) e um amigo me convidou para participar. Eu não tinha pretensão nenhuma com isso, mas acabou que eu ganhei esse concurso e com isso não consegui mais parar. Inicialmente era um hobby, hoje é minha profissão!

SashaZimmerPheeno: Qual a origem do seu nome e as inspirações para a personagem?

Sasha Zimmer: Eu sempre tive apelidos, desde sempre mesmo, com 16, 17 anos eu me dei o nome “Sasha”, além da filha da Xuxa, eu assisti um show das Destiny´s Child, onde determinado momento do show, Kelly Rowland chama Beyoncé de Sasha. Ao pesquisar, descobri que esse nome era como um apelido da Beyoncé, isso em 2006-2007. Achei interessante, me identifiquei e utilizei.

Pheeno: Você dança muito bem e simplesmente arrasa nas performances. Você fez aulas de dança ou aprendeu sozinha?

Sasha Zimmer: Eu comecei a mostrar um dom pra dança desde pequeno, iniciei aulas bem novo. Adolescente vi que a dança era mesmo o que eu mais amava nessa vida. Como drag, eu tinha que levar isso pros palcos, afinal é o que eu descobri amar também.

Pheeno: Dá trabalho ser uma drag impersonator/cover (aquela que se inspiram em um artista específico)? Reproduzir roupas, cabelos e coreografias não parece ser fácil.

Sasha Zimmer: É um trabalho que tem que ser muito estudado e elaborado. Ser impersonator vai além de roupas, cabelos e coreografias, é a essência. Embora eu seja cover, eu gosto de mostrar a Sasha homenageando a Beyoncé. Não quero imitá-la, gosto de mostrar que sei fazer e da forma como eu gosto de fazer. Mesmo quando tem que seguir a risca, é um investimento alto que se faz, pois o público exige que tudo seja idêntico.

Pheeno: Há quem diga que “drags impersonators” são sem criatividades por não criarem um personagem próprio. O que você responde para essas pessoas?

Sasha Zimmer: Eu, por mais que faça Beyoncé, minha identidade é única. Eu posso fazer tantas coisas e faço, é que no programa e carreira, as pessoas me conhecem (e preferem) que eu seja assim, e eu amo ser assim! Eu geralmente desenho e costuro meus figurinos, eu crio coreografias, edito meus shows, penso em tudo. Não acho que uma cover seja sem criatividade, acredito dar o mesmo trabalho que qualquer outra drag. Mas se você pensar, esses que dizem isso, geralmente estão vidrados no YouTube procurando semelhança com drags americanas… (zzzzz)

Pheeno: Como foi participar do Academia de Drags e o que isso mudou na sua carreira?

Sasha Zimmer: Quando eu recebi o e-mail de confirmação, eu dei um grito absurdo, eu realmente não acreditava nisso! Era/É uma oportunidade de visibilidade imensa, eu estava feliz só pelo fato de poder participar desse projeto (lembrando, totalmente independente, sem patrocínio financeiro algum). O Academia de Drags me abriu portas que talvez eu demorasse mais 9 anos pra conseguir. Eu mereci essa vitória, eu lutei e luto muito pelo meu trabalho, faço com muito amor e é maravilhoso ver esse sonho se tornando real. Hoje me sinto mais profissional, me sinto mais preparado também, mas a humildade continua a mesma, acredite!

Sasha Zimmer na final do Academia de Drags…

Pheeno: Tem alguma drag internacional preferida? E nacional?

Sasha Zimmer e Adore Delano
Sasha Zimmer e Adore Delano
Eu comecei a ver RuPaul´s por conta da Adore Delano, eu já conhecia o seu trabalho musical, nisso eu fui conhecendo outras artes, outras formas de ser Drag. Admiro muito esse trabalho, essa arte. Nacionalmente, tenho como referência Íkaro Kadoshi (meu pai de noite) e Stripperella, são dois grandes artistas que eu, quando mais novo, assistia e imaginava: “É isso que eu quero fazer!”. Hoje em dia tenho muita admiração nas drags camaleoas, que se permitem inovar, arriscar e fazer algo novo. Alexia Twister, pra mim, uma drag muito completa!

Pheeno: Recentemente a boate Sinônimo perdeu seu dono e fechou as portas. A gente quer saber o que o Sinônimo e o Moisés representaram na sua carreira.

Sasha Zimmer: Quando eu cheguei no RJ, o Moisés foi o cara que me apadrinhou de uma forma única. Aliás, ele e Suzy Brasil. Eu iniciei meus trabalhos com shows, depois me tornei hosstess e depois ele me deu a oportunidade de produzir uma festa semanalmente na casa, onde eu também atuava como DJ. Ele sempre foi como um pai, sempre muito alegre e apto a receber críticas e sugestões. Eu evolui muito no Sinônimo, eu amava esse lugar, estar ali era como realmente estar em casa.

Pheeno: Você como artista, gay, drag queen, negro, já sofreu preconceito? Já sofreu preconceito dentro do próprio meio LGBT?

Sasha Zimmer: Claro, constantemente. Ser negro entre meus amigos brancos era algo estranho e, além disso, eu era o gay afeminado escandaloso – isso pra mim foi algo que me desmoronava constantemente. Embora eu tenha crescido em um círculo onde eu era o único negro, com o tempo meus amigos de infância foram me conhecendo e me entendendo, eles foram aprendendo assim como eu fui. O preconceito pra mim é algo que, mesmo que eu sofra, ainda assim retribuo com amor a quem o faz/fez. Recentemente, eu recebi um ódio gratuito na internet pelo fato de ter vencido o Academia de Drags e isso me deixou muito triste, mas só me serviu pra ter mais forças e melhorar como pessoa. Não preciso provar a essas pessoas que sou boa, que sou humana, humilde ou que o fato de ser negro ou gay me torna alguém diferente, abominável ou ruim. Isso me serve pra evoluir, essas pessoas devem respeitar ao próximo, sempre, sem questionamentos. Cada um no seu quadrado!

SashaZimmerBeyonce

Pheeno: Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Sasha Zimmer: Nossa, rs… Eu ganhei muitos concursos ao decorrer da carreira, acredito que cada passo e vitória que eu dei foi muito importante pra mim e pra minha carreira. O “Drag Danger” é um dos maiores concursos de transformismo no Brasil, como maior prêmio em dinheiro. São 6 meses de concurso e mais de 90 drags passam pelo palco competindo. Eu, no meu terceiro ano, consegui realizar esse sonho (2012). Após isso, eu dancei com os bailarinos oficiais da Beyoncé, “Les Twins”, no programa Legendários, da Record. Isso foi surreal, eu ainda vejo o vídeo e penso: “Como isso foi acontecer? É real?”, foi um sonho, mesmo. Abrir o show da Adore Delano, na festa Priscilla. E o Academia de Drags, foi algo que eu não esperava, mas eu me dediquei tanto que depois vi o quanto eu merecia, e com a vitória me trouxe a boates fantásticas, como a Blue Space, sonho de toda queen e também a oportunidade de conhecer outras boates, cidades e estados. São muitos momentos, difícil pautar um, rs…

Sasha Zimmer no programa Legendários, ao lado dos dançarinos da Beyoncé…

Pheeno: O que podemos esperar de novidades daqui para frente?

Sasha Zimmer: Eu estou me mudando pra São Paulo, mas não deixarei o Rio de Janeiro e nem qualquer lugar por onde eu tenha passado. A coisa tem se tornado séria e as oportunidades únicas, eu preciso agarrar! As pessoas podem sim esperar algo novo da Sasha Zimmer, porque a vida é isso: buscar evoluir constantemente. Estou feliz, muito feliz e cheia de projetos, espero concluí-los logo pra que as pessoas que tanto me criticam entendam o que eu realmente mereço estar onde estou.

Pheeno: Quando não está montado, como é o Fábio? O que ele gosta de fazer?

Sasha Zimmer: Olha, recentemente eu passei por um “susto” na minha vida, onde eu vi que nesses 9 anos eu não me dediquei merecidamente ao Fábio. Aliás, há dias atrás eu descobri que meu nome era esse, rs. Eu sou uma pessoa muito amiga, mesmo. Gosto de conversar, eu gosto de sair, eu amo karaokê e sorvete, se me convidar pra esse tipo de programa, já me conquistou, rs. O Fábio é tímido, é mais reservado, mas com a Sasha eu aprendi a me impor, a me dar mais respeito e impor esse respeito. Eu costumo dizer que a (ou o) Sasha não é um personagem, eu sou o Fábio Sasha sempre, é uma única essência, uma única pessoa. Meu sorriso não é mascarado, nem minha tristeza ou felicidade, eu sou assim. A vida é muito curta pra gente ficar mascarando esses sentimentos atrás de alguma coisa.

Apaixonado por Comunicação, Marcelo Haubrich é editor do Pheeno e também responsável pelo marketing e redes sociais do site! Além disso, o carioca de 25 anos acumula diversas funções na noite brasileira: designer, produtor, DJ, entre outras.

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