“Tenho que lutar 10 vezes mais para ocupar meu espaço”, desabafa o carioca DJ Foxx

Do subúrbio para os palcos!

Não está fácil encarar esses dias de isolamento social! Pensando nisto, o DJ Foxx, um dos expoentes da cena LGBTQI+ do Rio de Janeiro, resolveu lançar um set de funk para animar a nossa quarentena!

Aproveitamos para bater um papo com carioca sobre preconceito e as dificuldades do trabalho na noite:

De onde vem seu nome artístico ‘Foxx’?
“Eu sempre fui muito fã Beyoncé, aluguei um filme no qual ela fazia uma agente secreta nos anos 70 e tinha um black power maravilhoso loiro, foi na época que eu assumi minhas raízes e deixei meu black crescer, então começaram a me chamar de Foxxy (era assim que eu era conhecido antes do Facebook comer meu ‘Y’.”

Você é um DJ ‘open format’, como o funk se tornou mais presente na sua carreira?
“Eu sou funkeiro desde que eu me entendo por gente. Depois que me tornei DJ, o funk veio de um ‘promo SET’ que eu fiz pra um amigo produtor, que, segundo ele, queria um set pra malhar. Na verdade foi um truque pra me estudar sem eu saber, daí ele me colocou na minha primeira festa com público grande pra eu tocar funk pela primeira vez.”

Quando se deu conta de que você é uma referência de DJ funk LGBT+ no rio?
“Eu comecei a perceber quando as pessoas vinham falar comigo, me elogiar falando que meu trabalho no funk era um dos melhores. Quando outros DJs me usavam de referência no funk e produtores vinham falar comigo, aí tive noção da grandiosidade do DJ Foxx no funk.”

Você se considera vaidoso?
“Queria ser mais, porém, me considero sim. Procuro estar sempre com cabelo e roupa impecável, o mínimo que o público merece e isso.”

Quanto de vaidade e quanto de markting têm nos looks bafônicos que você costuma usar?
“Meio a meio. Comecei como marketing, porém depois levei isso pra minha vida. Nada melhor que tu olhar no espelho com um cabelo foda e falar: ‘PUTA QUE PARIU, TÔ MARAVILHOSO’!”

Seus looks estão sempre acompanhados de um cabelo tão bafônico quanto, que está em constante mudança, mas sem deixar a negritude de lado. Por quê?
“Sou eu, é minha essência, minha raiz, é o que herdei de mais lindo dos meus ancestrais. Eu tenho muito orgulho de usar meu black, minhas tranças. Jogar minha negritude pra rolo é a coisa mais libertadora que já aconteceu na linha vida, eu assumir minhas raízes, foi libertador e isso é a primeira coisa que faço questão de mostrar.”

Você já enfrentou preconceito por ser negro no mercado de DJs?
“Por ser negro ? Sempre! Por eu ser negro, ‘fora do padrão’ e suburbano, pra determinadas festas pesa sim. Já teve produtor que falou que não me queria na festa por eu não ser a cara da festa, ou porque não tocava em festa ‘X’ (onde todos os DJs eram ‘brancos padrões’). A desculpa foi: ‘Não sou preconceituoso, eu contratei fulane’ (uma pessoa negra, porém com um ‘corpo bom’). É por isso que digo, são essas, entre outras coisas, que tenho que lutar 10 vezes mais para ocupar meu espaço e me manter, porque é difícil.”

Como consumidor de funk e profissional que trabalha com funk, a quem você dá o crédito pela popularização do ritmo?
“Hoje em dia ocupamos um espaço muito bom, mas ainda somos muito marginalizados. Devemos muito à galera lá de trás que, mesmo com todos indo contra, levavam o funk até a televisão. Claudinho e Buchecha, DJ Marlboro, Mc Marcinho foram grandes nomes que nos ajudaram nessa evolução, porém, na minha opinião a Tati Quebra Barraco foi quem elevou o funk em uma época na qual era literalmente coisa de preto e de favelado, é a mulher que eu mais amo e mais tenho admiração. Ela veio da favela e ganhou o mundo. Naquela época, um funk tocar em horário nobre na Globo, foi uma vitória para todos os funkeiros sem duvidas!”

Finalmente o funk deixou de ser ‘som de preto, de favelado’?
“O funk tomou um espaço muito grande, hoje toca funk em tudo que é lugar, porém ainda sim é muito descriminado.”

Para você, como é ser um DJ negro ‘fora do padrão’ famoso?
“É engraçado ver a galera pedindo tirar foto, falando comigo quando me vêm fora de festa, isso mostra que tô no caminho certo. Nessa trajetória é tudo 10 vezes mais difícil pra mim, eu tenho que lutar 10 vezes mais pra conquistar meu espaço. Quando eu falo que quero algo, vou lá e consigo, felizmente não me falta vontade de crescer nem talento. Não quero ser só mais um DJ que sobe no palco e toca, eu quero abrir portas pra outros DJs negros mostrarem que podemos sim tocar pra milhares de pessoas em um estádio de futebol, ou em uma Parada LGBT+, tô aqui pra dar a cara à tapa por todos!”

O carioca de 30 anos, “nascido em Cascadura e morador da Praça Seca, suburbano nato”, comemorou 4 anos de carreira em março, logo após o início da quarentena, o que impediu o DJ de fazer sua estreia fora do Brasil, Foxx iria tocar na Treta Chile que aconteceria dia 20 de março, na boate ‘Iluminati’ em Santiago. Tudo isso serviu de estimulo para que ele gravasse o SET “Paredão do Foxx 18+”.

São 44 minutos com o melhor do proibidão atual, como: ‘Desligo e Jogo’ (Mc Rebecca), ‘Aquecimento da Gaiolagem’ (Corvina da Penha); ‘Vai Luan’ (Mc Moana); ‘Verdinha’ (Ludmilla); e o remix 150 de ‘Baila Comigo’ (Rennan da Penha), “pra vocês sacudirem a raba até não aguentarem mais”.

Este SET faz parte de um projeto pessoal do DJ, no qual toda semana ele gravará um novo SET com um estilo musical escolhido por seus seguidores no Instagram, “eu crio no story e coloco duas opções pro pessoal votar. não era de se esperar que o primeiro fosse um funkão né, todes nós adoramos cavar petróleo arrastando a raba no chão!”.

Ficou curiose pra saber qual será o próximo SET, então corre lá no Instagram do DJ Foxx e não deixa de votar. Enquanto semana que vem não chega, a gente vai rebolando tudo com “Paredão do Foxx 18+”.

Arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br! #MandaAssunto