Autor de livro sobre padres gays denuncia omissão do MP-SP após arquivamento de inquérito sobre ameaças
Brendo Firmino da Silva, autor do livro A Vida Secreta dos Padres Gays, afirmou se sentir negligenciado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) após o arquivamento parcial do inquérito que investigava as ameaças de morte, tortura e sequestro que sofreu em razão do lançamento da obra. Segundo o escritor, as ameaças foram enviadas durante vários dias consecutivos, por meio de diferentes redes sociais e sempre pelo mesmo perfil, com mensagens de tom violento e abertamente homofóbico. Diante da gravidade das ofensas, Brendo registrou boletim de ocorrência e passou a viver sob medo constante.
De acordo com informações divulgadas pela coluna Gente, da Veja, o autor das ameaças foi identificado pela polícia como Sérgio Lamego Nepomuceno, que confessou o crime e declarou ter agido por “indignação com o conteúdo do livro”, afirmando ser “católico praticante”. Apesar da confissão e do teor homofóbico das mensagens, o promotor Danilo Keiti Goto, do Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (GECRADI), decidiu não enquadrar o caso como crime de intolerância, limitando a denúncia ao artigo 147 do Código Penal (ameaça). No despacho, o promotor chegou a registrar que o agressor “rezou pela vítima” e concluiu que “não houve prejuízo à vítima”.
Para Brendo, o posicionamento do MP-SP é “um retrato da omissão do Estado diante da violência contra pessoas LGBT+”. O autor classificou como “absurdo” o fato de o Ministério Público ter considerado a oração do agressor como um gesto de arrependimento. “É um absurdo que o Ministério Público registre oficialmente que o agressor ‘rezou por mim’, como se isso apagasse as ameaças de tortura e de morte que sofri. Isso não é arrependimento, é cinismo. O fato de o acusado ser ‘católico praticante’ não o torna menos violento. Torna o caso ainda mais revelador da intolerância que enfrentei”, afirmou o escritor à coluna.
O autor também declarou que irá recorrer da decisão e levar o caso a instâncias superiores, além de acionar organismos de direitos humanos, nacionais e internacionais, para denunciar o descaso das autoridades brasileiras. “Essa decisão mostra que o ódio ainda é tratado com benevolência quando parte de pessoas que se dizem religiosas. O silêncio institucional é cúmplice. O Brasil precisa decidir se vai proteger suas minorias ou continuar lavando as mãos diante da violência”, concluiu Brendo.

