Durante uma sessão do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, realizada em 3 de fevereiro, o debate em torno do projeto de lei HR 1028 — batizado de “Ato de Proteção das Mulheres nos Esportes Olímpicos e Amadores” — ganhou contornos de guerra cultural. Em meio às discussões sobre a participação de pessoas trans em competições esportivas, a deputada republicana do Wyoming, Harriet Hageman, decidiu mirar no próprio vocabulário usado no debate público, afirmando que o termo “cisgênero” seria uma “palavra inventada” e se recusando a ser identificada dessa forma.
Ao tomar a palavra, Hageman afirmou: “Cisgênero é uma palavra inventada. Não significa nada” e completou: “Não me chamem de cisgênero. Eu sou uma mulher”. Na sequência, a parlamentar elevou o tom e acusou o termo de representar, segundo ela, um suposto esforço da esquerda para “reescrever a língua inglesa”, numa tentativa de moldar o debate público e, em suas palavras, “destruir a ordem civil”. A declaração rapidamente repercutiu nas redes e reacendeu discussões sobre linguagem, identidade e política nos Estados Unidos.
Criado nos anos 1990 e hoje amplamente utilizado em pesquisas acadêmicas, no jornalismo e em debates sobre diversidade, o termo “cisgênero” serve para nomear pessoas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no nascimento. A proposta do conceito não é “rotular por rotular”, mas permitir que se fale sobre gênero de forma mais precisa e equilibrada, sem tratar pessoas trans como exceção ou desvio da norma. Ao criar uma palavra para quem não é trans, o debate passa a colocar todos os corpos e identidades no mesmo plano de análise.
Ainda assim, o uso do termo segue sendo alvo de resistência por parte de grupos chamados de “críticos de gênero” e de algumas vertentes do feminismo que rejeitam a terminologia por motivos ideológicos. O episódio no Congresso escancara como discussões sobre direitos de pessoas trans acabam, muitas vezes, deslocadas para disputas simbólicas sobre linguagem, enquanto projetos de lei avançam propondo restrições concretas à participação e à existência dessa população em espaços públicos — inclusive no esporte.










