Home Destaque Estudo da USP liga transfobia em banheiros públicos a distúrbios urinários em...

Estudo da USP liga transfobia em banheiros públicos a distúrbios urinários em pessoas trans

29

Um estudo inédito realizado pela Universidade de São Paulo (USP) acendeu um alerta importante sobre os impactos da transfobia na saúde física da população trans. Realizada de outubro de 2024 a março de 2025, a pesquisa, conduzida na Escola de Enfermagem (EE-USP), identificou uma relação direta entre episódios de constrangimento e violência em banheiros públicos e o desenvolvimento de distúrbios do trato urinário inferior. O levantamento ouviu 131 pessoas trans e aponta que o medo, a insegurança e o julgamento social estão atravessando corpos de forma concreta, deixando marcas que vão muito além do abalo emocional.

Intitulado Transfobia no Uso de Banheiros Públicos e sua Associação com as Disfunções de Trato Urinário Inferior, o estudo foi desenvolvido pela graduanda Brunna Ciarcia dos Santos Arnandes, sob orientação da professora Gisela Maria Assis. Segundo a docente, trata-se de uma pesquisa pioneira. A investigação integrou um projeto maior sobre a atuação de enfermeiros nas disfunções do assoalho pélvico e contou também com a participação das estudantes Letícia Delvaz e Beatriz Mariano. O objetivo era entender se as dificuldades de acesso e o medo de agressões em banheiros públicos influenciam comportamentos prejudiciais à saúde urinária da população trans.

Os resultados são alarmantes. Entre as pessoas entrevistadas, 87% afirmaram adiar ao máximo a ida ao banheiro, mesmo quando sentem vontade de urinar. Já 70% relataram que acabam urinando de forma apressada ou forçada, muitas vezes para sair rapidamente do local. Não por acaso, 93% disseram já ter sentido constrangimento nesses espaços, 89% relataram insegurança e quase metade, 47%, afirmou ter sofrido transfobia diretamente ao utilizar um banheiro público. Esses comportamentos, segundo as pesquisadoras, estão estatisticamente associados a quadros como bexiga hiperativa, retenção urinária e incontinência, além de aumentarem o risco de infecções e outras complicações.

A pesquisa também aponta que as principais razões para evitar banheiros envolvem tanto questões estruturais, como a ausência de espaços inclusivos, quanto o medo real de violência e julgamento. A maioria da amostra era composta por pessoas brancas, com nível superior e pertencentes à classe média, perfil que pode ter sido influenciado pela divulgação online do formulário. Ainda assim, os dados revelam um problema estrutural grave: quando um direito básico como usar o banheiro se transforma em fonte de medo, o impacto deixa de ser apenas social e passa a ser também uma questão urgente de saúde pública.