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Estudo da USP liga transfobia em banheiros públicos a distúrbios urinários em pessoas trans

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Um estudo inédito realizado pela Universidade de São Paulo (USP) acendeu um alerta importante sobre os impactos da transfobia na saúde física da população trans. Realizada de outubro de 2024 a março de 2025, a pesquisa, conduzida na Escola de Enfermagem (EE-USP), identificou uma relação direta entre episódios de constrangimento e violência em banheiros públicos e o desenvolvimento de distúrbios do trato urinário inferior. O levantamento ouviu 131 pessoas trans e aponta que o medo, a insegurança e o julgamento social estão atravessando corpos de forma concreta, deixando marcas que vão muito além do abalo emocional.

Intitulado Transfobia no Uso de Banheiros Públicos e sua Associação com as Disfunções de Trato Urinário Inferior, o estudo foi desenvolvido pela graduanda Brunna Ciarcia dos Santos Arnandes, sob orientação da professora Gisela Maria Assis. Segundo a docente, trata-se de uma pesquisa pioneira. A investigação integrou um projeto maior sobre a atuação de enfermeiros nas disfunções do assoalho pélvico e contou também com a participação das estudantes Letícia Delvaz e Beatriz Mariano. O objetivo era entender se as dificuldades de acesso e o medo de agressões em banheiros públicos influenciam comportamentos prejudiciais à saúde urinária da população trans.

Os resultados são alarmantes. Entre as pessoas entrevistadas, 87% afirmaram adiar ao máximo a ida ao banheiro, mesmo quando sentem vontade de urinar. Já 70% relataram que acabam urinando de forma apressada ou forçada, muitas vezes para sair rapidamente do local. Não por acaso, 93% disseram já ter sentido constrangimento nesses espaços, 89% relataram insegurança e quase metade, 47%, afirmou ter sofrido transfobia diretamente ao utilizar um banheiro público. Esses comportamentos, segundo as pesquisadoras, estão estatisticamente associados a quadros como bexiga hiperativa, retenção urinária e incontinência, além de aumentarem o risco de infecções e outras complicações.

A pesquisa também aponta que as principais razões para evitar banheiros envolvem tanto questões estruturais, como a ausência de espaços inclusivos, quanto o medo real de violência e julgamento. A maioria da amostra era composta por pessoas brancas, com nível superior e pertencentes à classe média, perfil que pode ter sido influenciado pela divulgação online do formulário. Ainda assim, os dados revelam um problema estrutural grave: quando um direito básico como usar o banheiro se transforma em fonte de medo, o impacto deixa de ser apenas social e passa a ser também uma questão urgente de saúde pública.