Revisão científica aponta que mulheres trans não têm vantagem física sobre mulheres cis
Uma nova revisão científica vem jogando luz sobre um dos debates mais atravessados por desinformação quando o assunto é esporte e pessoas trans. Ao analisar dezenas de estudos sobre desempenho físico, pesquisadores apontam que mulheres transgênero não apresentam vantagens competitivas em relação a mulheres cisgênero após passarem por meses de terapia hormonal. Os dados ajudam a desmontar narrativas recorrentes que têm sido usadas para justificar exclusões e políticas discriminatórias em diferentes modalidades esportivas ao redor do mundo.
O levantamento reuniu resultados de cerca de 50 estudos, com um total de 6.485 pessoas analisadas, incluindo mulheres e homens trans, além de participantes cisgênero, com idades entre 14 e 41 anos. Com participação de cientistas brasileiros, a revisão avaliou indicadores como força muscular, condicionamento físico e capacidade cardiorrespiratória. O que aparece de forma consistente é que, após um período de hormonização, os níveis de desempenho de mulheres trans se aproximam dos observados entre mulheres cis.
Mesmo em aspectos frequentemente citados por críticos da inclusão — como massa muscular —, os resultados não sustentam a ideia de uma “vantagem natural”. Embora mulheres trans possam manter maior massa muscular em comparação com mulheres cis após um a três anos de terapia hormonal, os estudos indicam que elas também apresentam níveis de gordura corporal significativamente mais altos do que homens cis. Além disso, não foram encontradas diferenças relevantes na força da parte superior e inferior do corpo, nem no consumo máximo de oxigênio, um dos principais marcadores de aptidão física.
Para os cientistas envolvidos na revisão, o caminho para políticas esportivas mais justas passa, necessariamente, por evidências e não por pânico moral. Segundo os autores, “a pesquisa contínua sobre as trajetórias fisiológicas e psicossociais entre atletas transgêneros com diversas características demográficas e clínicas permanece essencial para o desenvolvimento de estruturas equitativas que equilibrem justiça, inclusão e rigor científico”. Em tempos de tentativas de barrar corpos dissidentes do esporte, estudos como esse ajudam a recolocar o debate no lugar que importa: o da ciência e dos direitos.

