Em 2026, a forma como as pessoas se relacionam com o próprio desejo está passando por uma transformação silenciosa, mas profunda. O sexo deixa de ser encarado como performance, obrigação ou validação externa e passa a ocupar um lugar mais íntimo, ligado ao cuidado, à escuta e ao autoconhecimento. Em meio ao avanço das discussões sobre saúde mental e qualidade de vida, a sexualidade ganha novos contornos e se aproxima de um conceito mais amplo de bem-estar.
É nesse cenário que surge com força o chamado sex care, tendência apontada pela plataforma de relacionamentos Happn. A proposta reflete uma mudança de perspectiva: a intimidade não se limita mais à troca com o outro, mas inclui, de forma central, a relação consigo mesmo. A masturbação, historicamente cercada de tabu, passa a ser vista como uma ferramenta legítima de autorregulação emocional e reconexão pessoal. “Essa mudança é ilustrada pelo aumento da masturbação como forma de regulação emocional e autoconexão: quase uma em cada cinco pessoas em todo o mundo pratica regularmente. O que antes era visto como um tabu, é agora uma forma de os solteiros aliviarem a carga mental e recuperarem o próprio controle”, destacou a plataforma.
Os dados ajudam a explicar esse novo momento. Embora a frequência das relações sexuais esteja em queda, a satisfação com a vida sexual segue em alta. Globalmente, 45% das mulheres e 39% dos homens afirmam estar muito satisfeitos. No Brasil, o cenário chama ainda mais atenção: 52% dos solteiros dizem se masturbar ocasionalmente, enquanto 63% preferem uma abordagem mais simples e descomplicada da intimidade solo, sem pressão, roteiro ou expectativas externas. O prazer, nesse contexto, deixa de ser sobre quantidade e passa a ser sobre presença e qualidade.
Para a psicanalista Michele Umezu, essa mudança revela um deslocamento importante na forma como lidamos com o desejo. “Quando a sexualidade deixa de ser um espaço de cobrança e passa a ser um espaço de cuidado, ela se torna mais verdadeira. O sex care fala menos sobre técnica e mais sobre escuta do próprio corpo, dos limites e das necessidades emocionais”, analisa. Na mesma linha, o médico e terapeuta sexual João Borzino reforça que termos como sex care e sexual wellness ampliam o entendimento da sexualidade para além do ato em si, conectando prazer, autonomia e equilíbrio emocional. Em um mundo onde o bem-estar deixou de ser luxo, cuidar da própria vida íntima se torna parte essencial desse processo.










