A repressão contra a comunidade LGBTQIAPN+ na Rússia ganhou mais um capítulo inusitado: pessoas que publicaram conteúdos homofóbicos também estão sendo punidas pelas autoridades quando as imagens compartilhadas apresentam a bandeira do arco-íris. Um levantamento do veículo independente russo Mediazona identificou pelo menos cinco casos em que tribunais e órgãos de segurança desconsideraram o contexto das publicações e aplicaram sanções por entenderem que a presença do símbolo estaria relacionada à chamada “propaganda LGBT”. Em algumas situações, os próprios autores dos conteúdos afirmavam ser contrários aos direitos da população LGBTQIAPN+.
Entre os episódios documentados está o de Vera Makeyeva, aposentada da cidade de Kurgan que chegou a comemorar publicamente a decisão de proibir o movimento LGBTQIAPN+ no país. Cerca de seis meses depois, ela recebeu uma multa de 1.500 rublos (aproximadamente R$ 100) por republicações antigas de mensagens homofóbicas acompanhadas de uma bandeira do arco-íris. “A culpa é minha. Eu não organizava meus álbuns de fotos há 13 anos. Algumas pessoas se interessaram o suficiente para vasculhá-los”, declarou. Já Pyotr Voronin, morador de Pyatigorsk, passou um dia preso após compartilhar uma montagem que mostrava os presidentes da Ucrânia e da França ao lado de uma suástica e da bandeira LGBTQIAPN+. Ele alegou que a publicação tinha como objetivo ridicularizar os dois países e ironizou a atuação das autoridades: “A inteligência artificial do FSB decidiu que eu estava espalhando propaganda”.
Outros dois episódios envolveram multas de 100 mil rublos (cerca de R$ 6,7 mil cada). Na região de Kemerovo, o aposentado Vladimir Sugakov foi penalizado por publicações consideradas propaganda LGBTQIAPN+, incluindo uma apresentação de fotografias de Paradas do Orgulho ao som da música “Petushki”, de Sergei Trofimov. A canção utiliza uma expressão que, no vocabulário prisional russo, é associada a homens gays. Em Moscou, outro morador recebeu a mesma punição após publicar um vídeo intitulado “Iniciação Nazista”, que, segundo ele, havia sido compartilhado em tom de brincadeira. O tribunal, porém, entendeu que o material configurava propaganda LGBTQIAPN+. O caso mais grave envolveu o padre católico polonês Grigory (Grzegorz Zwoliński), que recebeu uma multa de 1.000 rublos por acrescentar uma bandeira do arco-íris a uma publicação sobre o arcebispo Paolo Pezzi, segundo ele, para chamar atenção. Posteriormente, sua autorização de residência foi revogada e ele recebeu uma proibição de retorno à Rússia. Depois de 24 anos vivendo no país, o religioso precisou voltar à Polônia.
Os episódios acontecem em meio ao endurecimento das políticas russas contra a população LGBTQIAPN+. Em novembro de 2023, a Suprema Corte do país declarou o chamado “movimento LGBT internacional” uma organização extremista, decisão amplamente criticada por organizações de direitos humanos. Desde então, a classificação passou a fundamentar pelo menos 14 investigações criminais e centenas de processos administrativos. A medida também ampliou os riscos para pessoas LGBTQIAPN+ e para qualquer cidadão que publique, compartilhe ou discuta conteúdos relacionados à diversidade sexual e de gênero.







