Home Destaque Jornalistas do maior portal LGBTQ+ em língua russa são forçados ao exílio...

Jornalistas do maior portal LGBTQ+ em língua russa são forçados ao exílio após governo classificá-los como “extremistas”

16

A perseguição do governo russo à diversidade sexual e de gênero ganhou um novo e alarmante capítulo. Jornalistas do Parni+, maior publicação voltada ao público LGBTQIAPN+ em língua russa, vieram a público para relatar o impacto de terem sido obrigados a deixar o país após o veículo ser classificado como uma “organização extremista”. Fundado em 2008 como um portal dedicado à prevenção do HIV entre homens gays e bissexuais, o site ampliou sua atuação ao longo dos anos para abordar direitos humanos, discriminação, migração e outros temas relacionados à comunidade. Em abril deste ano, porém, um tribunal russo acatou uma ação do Ministério da Justiça e enquadrou a publicação como extremista por sua cobertura dessas pautas, em meio ao endurecimento das leis de “propaganda anti-LGBT” promovidas pelo governo de Vladimir Putin.

A decisão obrigou grande parte da equipe a buscar refúgio no exterior. Ao portal Pink News, o fundador e editor-chefe, Yevgeny Pisemsky, contou que teve apenas 24 horas para deixar a Rússia depois que um processo criminal foi aberto contra ele. “Sempre quis morar no exterior por um tempo, mas nunca quis sair assim. Eu tinha apenas 24 horas para sair”, relembrou. Hoje asilado no Reino Unido, ele afirma que sua maior preocupação não é apenas com os jornalistas, mas também com o público do portal. “O Estado está tentando tornar perigosa a própria conexão entre nós e nosso público”, lamentou. Para Pisemsky, o objetivo das autoridades russas é fazer com que LGBTs voltem a acreditar que estão completamente sozinhas.

Os relatos dos demais integrantes da equipe revelam o alto custo humano do exílio. A jornalista Itil Tyomnaya contou que mantinha uma “mochila de emergência” desde 2019, mas esperava nunca precisar utilizá-la. “Deixei toda a minha vida para trás na Rússia: minha carreira, meus amigos, a pessoa mais próxima de mim e inúmeras coisas insubstituíveis”, desabafou. Já Damir Musin descreveu sua fuga como “um inferno”, passando por abrigos em diversos países, enfrentando fome, problemas de saúde e até um assalto em Madri, onde perdeu documentos, computador e duas décadas de trabalho armazenadas em um disco rígido. “A única coisa que você realmente tem é a liberdade. Em todos os outros sentidos, sua vida recomeça do zero”, afirmou. O jornalista Vadim Vaganov, por sua vez, revelou ser alvo de diversos processos na Rússia e resumiu a estratégia das autoridades: “O Estado está tentando tornar tóxico o simples fato de conhecer você.”

Apesar da repressão e das dificuldades impostas pelo exílio, os profissionais afirmam que não pretendem interromper o trabalho do Parni+. Segundo Pisemsky, manter o portal ativo é uma forma de lembrar às pessoas LGBTQ+ que permanecem na Rússia que elas não foram abandonadas. “Sabemos que há pessoas na Rússia que nos leem e que estão assustadas e solitárias; elas precisam ver que alguém ainda está falando com elas em uma voz humana normal”, disse. Ele reforça que, ao classificar o site como extremista, o governo tenta apagar a existência da comunidade da esfera pública. “Parni+ não é apenas um site, é uma conexão para a comunidade.” Musin também fez um apelo para que o projeto sobreviva financeiramente: “Se o Parni+ algum dia se calar, não será porque o Estado venceu, mas sim porque ficamos sem recursos.” Mesmo diante da perseguição, a publicação segue no ar e continua produzindo conteúdo para seus leitores.