Home Destaque Gay de 62 anos relembra quando, aos 15, foi garoto de programa...

Gay de 62 anos relembra quando, aos 15, foi garoto de programa por quatro meses sem saber: “Idiotice da minha parte”

11

Muito antes dos aplicativos de relacionamento, das redes sociais e até mesmo de uma maior liberdade para homens gays demonstrarem interesse uns pelos outros em público, paquerar também era uma experiência cercada de códigos, segredos e, muitas vezes, ingenuidade. Foi nesse cenário que o internauta Giobert Mendes Gonçalves Jr., hoje com 62 anos, começou a descobrir sua sexualidade, ainda adolescente, no final dos anos 1970. Em um relato compartilhado nas redes sociais, ele revisitou uma história vivida aos 15 anos que, embora hoje seja lembrada com bom humor, também revela as dificuldades enfrentadas por uma geração que precisou aprender a ser gay praticamente às escondidas.

Giobert conta que, em 1979, frequentava o Parque Trianon, em São Paulo, onde outros gays se reuniam durante a tarde para conversar sobre a vida, sonhos e descobertas. Um dia, um deles comentou que, à noite, havia movimento no calçadão próximo ao Colégio Dante Alighieri e o convidou para conhecer o local. Ingênuo e desejando encontrar um namorado, ele imaginou que finalmente poderia viver uma experiência semelhante à que via entre os heterossexuais. “Na minha cabeça, eu imaginei que lá podia ser igual à antiga Rua Augusta. Os carros passavam, os carinhas paqueravam as meninas e, se rolasse, começava um namoro”, contou. Havia, porém, uma circunstância que tornaria tudo ainda mais confuso: Giobert é surdo em nível severo e, naquela época, não utilizava aparelho auditivo.

Com pouca iluminação no local, ele tinha dificuldade para entender o que os homens que se aproximavam diziam. Sem compreender as abordagens, reagia da maneira que havia aprendido quando não conseguia ouvir alguém: sorria e concordava. “Os caras vinham falar comigo, mas eu não entendia direito e, aí, eu fazia o que sempre fiz quando não entendia: dava uma risadinha e meio que concordava”, relembrou. Os encontros então se repetiam: um homem parava o carro, ele entrava, os dois faziam sexo e, depois, o rapaz o deixava novamente no calçadão. Para Giobert, aquilo significava que o homem simplesmente não havia gostado dele. A situação se repetiu durante quase quatro meses, até que, certa noite, um dos homens jogou dinheiro em seu colo. Sem entender o motivo, ele procurou um amigo, que acabou revelando a verdadeira natureza daquele lugar com uma frase que nunca esqueceu: “Bicha… De que planeta a senhora é?”. Foi somente naquele momento que ele descobriu que estava frequentando um ponto de prostituição masculina. “Aqueles homens não estavam procurando namorado. Estavam procurando sexo”, afirmou, ao perceber que havia feito programas durante meses sem sequer ser pago.

Mais do que uma história curiosa sobre a própria ingenuidade, no entanto, Giobert enxerga naquela lembrança um retrato de como homens gays de sua geração precisaram aprender a se relacionar em uma sociedade que oferecia poucos espaços para que isso acontecesse de maneira natural. “Olhando para trás, eu vejo o quanto era difícil ser gay naquela época. Hoje ainda é, mas naquela época não havia lugares onde a gente podia conhecer carinha de forma natural”, refletiu. Para ele, muitos gays aprenderam a paquerar e descobrir o próprio desejo em ambientes escondidos, onde sexo e afetividade frequentemente acabavam se confundindo. “A gente aprendia escondido, nas esquinas, nos banheiros, nos lugares onde a sociedade deixava a gente existir”, afirmou. E é justamente dessa experiência que nasce sua reflexão: “Talvez seja por isso que para muitos de nós, sexo e relacionamento tem começado quase no mesmo lugar”.