A paternidade, para o juiz Marcel de Ávila Soares Marques, de 42 anos, e o procurador legislativo João Paulo Lefundes Coelho, de 40, deixou de ser um projeto distante e ganhou nome, rosto e colo. Juntos há 13 anos, os dois celebram no Dia dos Pais o primeiro ano ao lado de Marina, que nasceu em março, em São José do Rio Preto (SP), após um processo de fertilização in vitro realizado por meio de gestação por substituição, conhecida como barriga solidária. A menina veio ao mundo no Hospital da Criança e Maternidade (HCM), com 50 centímetros e 3,190 quilos, após cerca de três horas de parto natural.
A trajetória até a chegada da filha começou muito antes da gravidez. Marcel e João Paulo se conheceram durante uma viagem à Bahia e viveram inicialmente um relacionamento à distância, até se mudarem juntos para São José do Rio Preto, em 2016. Com a vida profissional estabilizada, o desejo de formar uma família passou a ocupar espaço cada vez maior nos planos do casal. Em 2020, a chegada de Tião, o cachorro da família, também ajudou a reforçar a percepção de que estavam preparados para assumir uma nova responsabilidade. Depois de conhecerem as possibilidades disponíveis para casais homoafetivos, optaram pela gestação por substituição.
A pessoa que tornou o projeto possível, porém, não precisou ser procurada. Talita Miranda, de 39 anos, doula, educadora perinatal e mãe de dois filhos, amiga da família, se ofereceu para carregar o bebê assim que soube do desejo dos dois. A gestação foi acompanhada por uma clínica especializada em reprodução humana, em Ribeirão Preto, e envolveu avaliações médicas e psicológicas de todos os participantes. Os óvulos utilizados pertenciam a uma prima de João Paulo, enquanto o material genético masculino veio do casal. Segundo Marcel e João Paulo, a decisão foi resultado de muito diálogo e planejamento. “Ser pai vai muito além dos laços biológicos. É cuidar, proteger, educar, acolher, estar presente e amar incondicionalmente”, afirmam.
O vínculo construído durante o processo também ultrapassou o nascimento de Marina. Talita, que decidiu viver novamente a experiência da gestação por sentir saudade da gravidez e do parto, contou com o apoio do marido e dos filhos para realizar o gesto. Após o parto, ela própria cortou o cordão umbilical e, nos primeiros dias, ainda doou leite materno para a bebê — foram cerca de sete litros enviados à família até o oitavo dia de vida. Desde então, as famílias seguem próximas, compartilhando almoços, passeios e momentos ao lado da menina. Para os dois pais, a nova rotina trouxe noites mal dormidas, mamadeiras e fraldas, mas também a sensação de que um sonho cultivado por anos finalmente se tornou realidade. “Quando a pegamos no colo pela primeira vez, o tempo pareceu parar”, celebram.













