Foto: Instagram @frednicacio

Fred Nicácio merece voltar, vencer o BBB 23 e nós merecemos aprender uma lição

Fred Nicácio, um dos participantes mais marcantes desta edição, é um personagem com camadas tão complexas que fez toda a comunidade do ativismo negro, religioso e LGBT+ se mobilizar em suas respectivas demandas: ele é um homem negro, gay, segue religião de matriz africana, de origem pobre tendo conquistado, a duras penas, status social profissional historicamente ocupado por brancos cis.

O médico conhece na pele o que é sofrer perseguição, porque suas subjetividades vão muito além de um ataque isolado a sua pessoa, mas o de nascer uma criança preta e pobre e se compreender como gay mais tarde, ampliando ainda mais suas dúvidas sobre o que fazer com uma vida inteira sabendo que sempre sofrerá preconceito, mesmo confinado dentro de uma casa cheia de regras.

Talvez nós, ou a maioria de nós, acreditássemos que mesmo com regras impostas previamente pela produção de um programa, uma pessoa negra, LGBT e não cristão poderia viver pelo menos 3 meses em um mundo onde o racismo estrutural não viesse à tona, mas eis a falha cognitiva coletiva: o preconceito é parte da nossa estrutura e TODOS nós somos potencialmente racistas e homofóbicos, mas por que?

Nossa educação é baseada no sistema binário branco cis cristão, em geral, ao nascer já somos batizados, ganhamos madrinha e padrinho, nos vestem com roupas designadas para um sexo e ninguém discute racismo na escola para além da histórica escravidão, portanto a gente cresce com a ideia do que é norma e ficamos por toda a vida (ou quase) aprisionados nela.

Fred Nicácio rejeita todas as normas: não é católico, não é hétero, não é branco, não é preto pobre, não é monogâmico, não se cala nem baixa a cabeça. O médico afronta 21 pessoas simplesmente existindo e resistindo, ganhando o apoio de milhões pela audácia de dizer “eu estou te processando” com calma, leveza e tranquilidade, porque sabe que esse local de negro agressivo ele não ocupa.

A participação de Fred já é uma lição pra todos nós, mas sua preferência pelo retorno é um oportunidade a todos que acreditam que não são racistas ou homofóbicos porque tem tio negro e primo gay. Essa premissa não será mais aceita e é bom rever os valores ou arrumar uma nova desculpa, porque essa e a “quem me conhece sabe”, não colam mais.

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