Dois novos casos de possível cura do HIV foram apresentados durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, realizada nesta semana no Rio de Janeiro, reforçando os avanços das pesquisas em busca de uma estratégia capaz de eliminar o vírus do organismo. Os pacientes interromperam o uso da terapia antirretroviral e permanecem, respectivamente, há 14 e 12 meses sem qualquer sinal de replicação do HIV nos exames. Embora os resultados sejam considerados promissores, os especialistas ressaltam que ambos ainda são classificados como casos de possível cura ou remissão, já que o acompanhamento precisa continuar por mais tempo antes que haja uma confirmação definitiva.
Um dos casos é conhecido como “paciente de Kansas City”, um homem de 21 anos diagnosticado com HIV e uma forma agressiva de leucemia em 2018. Para tratar o câncer, ele foi submetido a um transplante de células-tronco de uma doadora com duas cópias da rara mutação genética CCR5-delta32, capaz de impedir que as variantes mais comuns do HIV invadam as células de defesa do organismo. Após enfrentar complicações e receber um reforço do transplante, o paciente suspendeu os antirretrovirais em fevereiro de 2025. Passados 14 meses, os exames continuam sem detectar o vírus no sangue ou células infectadas capazes de reiniciar a infecção.
O segundo paciente, que também convivia com hepatite B, recebeu um transplante de células-tronco de um doador portador da mesma mutação genética. O caso chamou atenção dos pesquisadores por envolver variantes do HIV capazes de utilizar diferentes mecanismos para infectar as células, tornando a remissão um desafio ainda maior. Os medicamentos foram interrompidos mais de quatro anos após o transplante e, um ano depois, o vírus segue indetectável, sem evidências de partículas capazes de se multiplicar ou de material genético completo do HIV em amostras analisadas. A interrupção do tratamento, no entanto, permitiu que a hepatite B voltasse a se replicar rapidamente, uma vez que parte da terapia também atuava contra esse vírus. Os pesquisadores retomaram o tratamento específico para o vírus da hepatite, enquanto o HIV continuou sem sinais de retorno.
Com os novos registros, a Sociedade Internacional de Aids (IAS) passa a contabilizar 13 casos de cura ou remissão do HIV em todo o mundo. Em comum, todos os pacientes passaram por transplantes de células-tronco para tratar doenças graves do sangue, como leucemias e linfomas — e não como terapia contra o HIV. Por se tratar de um procedimento complexo, de alto risco e indicado apenas em situações específicas, essa estratégia não representa uma opção para a maioria das pessoas vivendo com HIV. Ainda assim, os casos oferecem pistas importantes sobre os mecanismos que podem, no futuro, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos capazes de alcançar a remissão do vírus de forma mais segura e acessível.
Antes dos dois novos anúncios, a IAS contabilizava 11 casos após transplantes de células-tronco:
Paciente de Berlim (2009): Timothy Ray Brown entrou para a história como a primeira pessoa considerada curada do HIV. Diagnosticado com leucemia, ele passou por um transplante de células-tronco aos 40 anos e, após interromper os antirretrovirais, nunca mais apresentou sinais de retorno do vírus.
Paciente de Londres (2019): Uma década depois, Adam Castillejo tornou-se o segundo caso confirmado de cura. Aos 37 anos, ele recebeu um transplante para tratar um linfoma e permaneceu sem carga viral detectável mesmo após suspender o tratamento contra o HIV.
Paciente de Düsseldorf (2023): Marc Franke, de 53 anos, também alcançou a remissão após um transplante realizado durante o tratamento de uma leucemia. Anos mais tarde, deixou de tomar os antirretrovirais e o HIV continuou indetectável.
Paciente de Nova York (2023): O caso marcou a primeira mulher a entrar em remissão do HIV. Ela recebeu um transplante que combinou sangue de cordão umbilical com células-tronco de um doador adulto, técnica considerada inovadora.
Paciente City of Hope (2023): Paul Edmonds convivia com o HIV havia mais de 30 anos quando precisou de um transplante para tratar um câncer no sangue. Aos 63 anos, demonstrou que a remissão também pode ser alcançada por pessoas mais velhas.
Paciente de Genebra (2024): Pesquisadores chamaram atenção para esse caso porque o transplante foi realizado com células de um doador que não possuía a mutação CCR5-delta32, normalmente associada à resistência ao HIV. Ainda assim, o paciente entrou em remissão.
Segundo paciente de Berlim (2024): Diferentemente da maioria dos casos anteriores, tanto o receptor quanto o doador apresentavam apenas uma cópia da mutação genética protetora. Mesmo assim, o vírus não voltou a ser detectado após a interrupção dos medicamentos.
Paciente de Marselha (2024): Uma mulher na faixa dos 50 anos passou por um transplante para tratar leucemia e, posteriormente, também alcançou a remissão do HIV.
Paciente de Oslo (2025): Aos 58 anos, o paciente recebeu células-tronco do próprio irmão durante o tratamento de uma doença hematológica grave. Depois de interromper os antirretrovirais, continuou sem apresentar carga viral detectável.
Paciente de Chicago (2025): Esse caso teve uma evolução diferente. Após uma primeira suspensão do tratamento, o HIV voltou a ser detectado. Os medicamentos foram retomados e, em uma segunda tentativa de interrupção, o vírus permaneceu controlado, sem nova replicação.
Paciente de Toronto (2026): O registro mais recente antes dos anúncios feitos no Rio de Janeiro envolve um homem de 62 anos que realizou um transplante para tratar uma leucemia. Na apresentação do caso, ele completava dez meses sem antirretrovirais e seguia com carga viral indetectável.










