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“Gays de direita” viram piada nas redes após vídeos defendendo posicionamento político contraditório

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Se existe algo que as redes sociais brasileiras já aprenderam a fazer muito bem é transformar determinados discursos em combustível para memes. Foi o que voltou a acontecer com um grupo de “gays de direita” que ganhou notoriedade justamente por tentar explicar, em vídeo, por que pessoas LGBTQIAPN+ podem se identificar com o campo conservador. Depois de uma primeira publicação em que reclamavam de uma suposta “patrulha” contra gays que não votam à esquerda, os integrantes reapareceram com uma nova gravação — desta vez para defender o liberalismo econômico, exaltar o capitalismo e até questionar dados sobre a violência contra a população LGBTQIAPN. O resultado, novamente, foi uma enxurrada de críticas e piadas nas redes.

Com um discurso que tenta colocar liberdade sexual e liberdade econômica como duas faces obrigatoriamente inseparáveis, o grupo sustenta que ser gay deveria significar também defender o livre mercado, a propriedade privada e a redução da interferência do Estado. “Se eu quero decidir com quem eu durmo, eu também quero decidir com quem eu trabalho, o meu gasto, onde eu invisto, o que eu compro e o que eu construo”, afirma um dos integrantes. Em seguida, a gravação transforma o capitalismo quase em sinônimo de liberdade: “Propriedade privada também é liberdade”, “livre iniciativa também é liberdade” e “independência financeira também é liberdade”. A lógica, porém, ignora que direitos civis e direitos econômicos não funcionam como uma espécie de pacote político obrigatório — e que defender um não exige automaticamente abraçar o outro.

A parte mais controversa aparece quando o grupo decide atacar uma das principais referências utilizadas para dimensionar a violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil. Ao questionar o dado de que o país está entre os que mais matam pessoas LGBT, os integrantes afirmam que levantamentos baseados em notícias não seriam suficientes para determinar a motivação dos crimes. “Então um latrocínio vira crime de ódio”, dizem, antes de defender que seria necessário conhecer a motivação policialmente comprovada. O problema é que exigir rigor metodológico é legítimo; utilizar essa exigência para lançar desconfiança generalizada sobre a dimensão da violência LGBT, sem apresentar uma análise própria capaz de substituir os levantamentos existentes, é outra história. Em um país marcado por assassinatos, agressões e discriminações motivadas por orientação sexual e identidade de gênero, a discussão não deveria servir para diminuir o problema, mas para compreender suas dimensões com cada vez mais precisão.

No primeiro vídeo, o grupo já havia afirmado que “não existe diversidade quando todo mundo é obrigado a pensar igual” e que ninguém deveria transformar a orientação sexual em um “cabresto político”. E, de fato, ninguém é obrigado a votar em determinado candidato simplesmente por ser gay. O ponto que parece escapar ao grupo é que também não existe qualquer obrigação de a comunidade LGBTQIAPN+ aplaudir discursos que considera prejudiciais aos seus próprios direitos. No fim, a tentativa de provar que “gay de esquerda não existe” acabou produzindo exatamente o contrário: mais uma discussão sobre por que algumas pessoas LGBTQIAPN+ escolhem defender um campo político que, em diferentes momentos, também colocou sua própria existência no centro da disputa.