Em funcionamento desde 1909, o Cinema Iris, na Rua da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro, atravessou diferentes fases da história da cidade sem jamais fechar as portas. Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) desde 1978, o espaço sobreviveu ao declínio dos cinemas de rua, à popularização da televisão, à chegada do VHS e à expansão dos shoppings. Ao longo de mais de um século, também mudou de perfil diversas vezes: das sessões de cinema mudo acompanhadas por orquestra ao vivo aos filmes adultos, passando por operetas, shows, bailes de carnaval e apresentações musicais.
A programação erótica, que ocupa atualmente o cinema entre 10h e 19h, em sessões contínuas, acabou consolidando uma forte presença do público LGBTQIA+ entre os frequentadores. Antes de chegar ao formato atual, o Iris já havia apostado em diferentes atrações para se manter ativo, incluindo filmes de faroeste e apresentações de strip-tease nos intervalos. Agora, diante do projeto da Prefeitura do Rio de transformar a Rua da Carioca em uma espécie de “Rua da Cerveja”, o espaço avalia mais uma mudança de estratégia. Visitas guiadas gratuitas já começaram a ser realizadas, enquanto a família responsável pelo cinema estuda novas possibilidades para ampliar seu público.
Bisneto de João Cruz Júnior, fundador do espaço, Marcelo Argileu, atual gestor do Iris, pretende transformar o cinema em um equipamento também voltado para turismo, cultura e entretenimento. A proposta inclui a venda de cerveja, tours pelo prédio histórico, sessões de filmes de época e a realização de eventos, além da possibilidade de uma parceria com uma cervejaria. “A ideia é mudar o perfil do cinema, com espaço para venda de cerveja, abertura para visitação com tour guiado, exibição de filmes de época e até mesmo realização de eventos”, afirmou Marcelo ao jornal O Globo. Para ele, o projeto poderia avançar com mais facilidade caso houvesse apoio do poder público.
A trajetória do Iris também é marcada pela resistência da família Cruz em preservar o imóvel, mesmo diante de disputas e propostas de compra. Em 1997, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, proprietária do terreno onde o cinema foi construído, chegou a mover uma ação de despejo contra o estabelecimento por discordar de sua programação pornográfica, mas a família venceu a disputa judicial. Anos depois, em 2009, recusou uma proposta de compra feita pela Igreja Universal do Reino de Deus. Projetado pelo engenheiro Paulo de Frontin, o cinema já se chamou Soberano e Vitória antes de receber, em 1912, o nome Iris. Desde então, o espaço passou por transformações para permanecer vivo — e, agora, se prepara para descobrir qual será seu próximo capítulo na região central do Rio.



