As eleições costumam transformar as redes sociais em espaços ainda mais marcados por disputas políticas, confrontos e manifestações de diferentes formas de violência. No Brasil, esse ambiente de tensão também aparece nos registros de crimes de ódio praticados na internet. Um levantamento realizado a partir de dados da SaferNet e do Ministério Público Federal (MPF) aponta que a LGBTfobia apresentou crescimento justamente nos três anos eleitorais analisados: 2018, 2020 e 2022. Em cada um desses períodos, o número de registros aumentou em relação ao ano anterior, com altas de 63,73%, 92,30% e 51,90%, respectivamente.
A evolução dos números também chama atenção quando observada em um intervalo mais amplo. Em 2018, foram contabilizados 4.244 registros de LGBTfobia, enquanto, quatro anos depois, o total chegou a 6.829 ocorrências. São 2.585 registros a mais, o equivalente a um crescimento de 61% entre os dois anos eleitorais. O movimento não ficou restrito à violência contra a população LGBTQIA+: nos mesmos períodos, também foram observadas elevações em registros relacionados a racismo, misoginia, xenofobia, intolerância religiosa e apologia a crimes contra a vida, indicando uma intensificação mais abrangente de manifestações de ódio no ambiente digital durante os ciclos eleitorais.
Em 2022, ano marcado por uma das eleições mais polarizadas da história recente do país, alguns desses indicadores apresentaram saltos expressivos. A xenofobia foi a categoria que mais cresceu entre os registros considerados, com aumento de 821% em comparação com 2021. A intolerância religiosa apareceu em seguida, com alta de 522%, enquanto os registros de misoginia avançaram 184%. Os dados sobre LGBTfobia, por sua vez, fazem parte de um conjunto de informações reunidas pelos pesquisadores a partir de bases externas e utilizadas para contextualizar a presença de crimes de ódio em anos eleitorais. O levantamento não teve como objetivo investigar especificamente a LGBTfobia nem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre eleições e cada ocorrência registrada.
As informações aparecem no estudo “Discursos de ódio em redes sociais: uma análise com Processamento de Linguagem Natural”, de Gustavo Gurjão Camargo Campos, Eanes Torres Pereira e Sylvia Iasulaitis, publicado na Revista GEMInIS, periódico vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A pesquisa teve como foco as manifestações publicadas no X, antigo Twitter, entre julho e dezembro de 2022, buscando compreender como os discursos sobre o Nordeste e sua população se modificaram à medida que as eleições se aproximavam. A partir de técnicas de Processamento de Linguagem Natural (PLN), os autores identificaram que as palavras associadas aos nordestinos passaram a apresentar um teor progressivamente mais negativo ao longo do período, atingindo o ponto mais crítico durante os meses do pleito.










