Em um dos capítulos mais sórdidos da política estadunidense recente, o deputado estadual da Virgínia Ocidental, Elliott Pritt, tornou-se o epicentro de um escândalo que expõe, em tempo real, a mais pura hipocrisia conservadora. Em fevereiro de 2023, Pritt foi o único democrata a apoiar a proibição estadual de tratamentos de afirmação de gênero para jovens transgêneros — uma posição que logo o levou a mudar de partido, migrando para o conservador Grand Old Party (Grande Velho Partido) em abril, movido por sua suposta “desaprovação” às pautas LGBTQIA+. Hoje, porém, as manchetes não falam de suas cruzadas moralistas, mas sim de sua acusação formal por aliciamento de uma menor de idade, utilizando a plataforma de jogos infantis Roblox como ferramenta de predação.
A narrativa que Pritt e seus aliados construíram — a de um “protetor da infância” contra a suposta ameaça trans e a “ideologia de gênero” nas escolas — desmorona diante dos fatos. Enquanto apoiava medidas para proibir discussões sobre orientação sexual e identidade de gênero nas salas de aula, disfarçando-as como “proteção aos jovens”, o deputado usava o Snapchat e o Roblox para se comunicar com uma menina do oitavo ano, de apenas 15 anos. A troca de mensagens durou um ano inteiro, evoluindo de pedidos por fotos inapropriadas a declarações de amor, até que Pritt a convenceu a encontrar-se com ele à noite, em sua própria sala de aula — onde o relacionamento se tornou físico, repetindo-se em outras ocasiões. Para garantir o silêncio da vítima, ele a advertiu de que “perderia tudo” se o caso viesse à tona, e que a polícia estadual “abriria um inferno” na vida de ambos.
A denúncia partiu da própria família da adolescente, que corajosamente levou o caso às autoridades. Agora, o presidente da Câmara dos Representantes da Virgínia Ocidental, Roger Hanshaw, exige a renúncia imediata de Pritt, afirmando que “nenhuma criança deveria ser explorada por ninguém, especialmente por adultos em posições de confiança”. A ironia é tão afiada quanto venenosa: o mesmo homem que legislou contra a existência de jovens trans, que tentou apagar da escola qualquer menção à diversidade, é flagrado exatamente no tipo de crime que deveria estar combatendo. E, convenhamos, nada é menos chocante do que um conservador ser desonrado exatamente desta forma — com as mãos sujas de uma violência que eles tanto projetam sobre minorias.
Esta semana, o escândalo de Pritt não é um caso isolado, mas sintoma de um padrão que se repete nas entranhas da direita radical. O irmão de Tulsi Gabbard, aliada de Trump, foi preso por supostamente tentar atrair um menino de 9 anos para o seu quarto de hotel com doces. Enquanto o Partido Republicano segue numa cruzada desenfreada contra cidadãos trans e direitos LGBTQIA+, acusando-os de “perverter” a juventude, o verdadeiro abismo está bem diante de nossos olhos: uma estrutura de poder que normaliza o abuso, protege seus predadores e usa a criança como escudo retórico, enquanto a trata como presa nos bastidores. Que fique registrado: a guerra contra os trans sempre foi, e sempre será, um espelho da própria deformidade moral de quem a empunha.



