Garota trans de 17 anos é humilhada no colégio por colega pró-Bolsonaro e desabafa

Anne escreveu em seu blog, Trans-Tornada, sobre a experiência.

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Anne Celestino é de Recife, tem apenas 17 anos e já é uma guerreira! Cursando o terceiro ano do Ensino Médio, a adolescente transexual mantém um blog, chamado Trans-Tornada, para compartilhar seus textos e um pouco de sua vida desde que assumiu sua identidade de gênero em 2014. Recentemente, Anne usou o espaço para desabafar sobre o preconceito que sofreu na escola por um colega de classe defensor do deputado Bolsonaro. Leia o relato abaixo:

Não é a primeira vez que acontece comigo, mas foi a primeira vez que me machucou de verdade.

Hoje, eu fui humilhada na minha sala de aula por um garoto e por risos dos seus colegas.

Era aula de filosofia, e começou um debate sobre política, esse garoto (que não irei citar o nome) começou a falar de Bolsonaro, que Bolsonaro nunca robou, e que devia ser presidente, nesse exato momento, eu e mais três amigas minhas rimos.

Ele se levantou, e gritando e apontando pra mim falou “Vai pesquisar se Bolsonaro já roubou”, o professor mandou ele ter calma e ele continuou “Ela não respeita, ELA NÃO ELE”

Eu fiquei uns minutos em silêncio sem acreditar no que ele tinha acabado de dizer, logo depois me levantei e também gritei “Me respeita, tu não sabe a minha história e o quanto eu lutei para ser que eu sou, tu é só um mimadinho filhinho de papai” nessa mesma hora minhas amigas me puxaram para eu me sentar e me calar. Foi nesse exato momento que comecei a chorar desesperadamente e ainda não parei.

Na frente de uma sala inteira, um garoto, totalmente ignorante sobre questões de identidade de gênero e sexualidade veio deslegitimar minha identidade como se fosse o dono do mundo.

AGORA VAMOS PENSAR, porque 90 por cento das mulheres trans e travestis estão na rua se prostituindo? POR MEDO, por medo desse tipo de ataque, pelo fato de acharem que não podem ir a espaços educativos, afinal, quando vamos a espaços que TODOS vão, somos maltratadas, somos chamadas pelo nosso nome de registro, somos impedidas de usar o banheiro feminino e temos toda nossa luta deslegitimada.

Nós, mulheres trans e travestis, temos nos preparar psicologicamente sempre para os risos e o estranhamento que vão acontecer e vão durar até nossa talvez desistência de tentar ter uma educação digna, afinal, travestis e transexuais não podem estar em uma escola ou em uma faculdade, só podemos estar na rua de noite nos prostituindo.

As pessoas não entendem (ou não querem admitir) que a responsabilidade É NOSSA de existir tanta trans e travestis na rua.

A responsabilidade é nossa quando soltamos uma piadinha transfóbica.

A responsabilidade é nossa quando rimos daquela travesti na rua por ter uma aparência mais masculina ou uma voz mais grossa.

A responsabilidade é nossa quando expulsamos elas de ambientes que deveriam ser para todos, quando ao invés de tentar entender o que é considerado “diferente” ignoramos e desdenhamos.

EU vivo em uma sociedade em que a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos e que 8 entre 10 pessoas trans tem Síndrome do Pânico e/ou Depressão por viver uma vida aprisionada e, quando finalmente se liberta, recebe o ódio da sociedade.

Eu não aceito mais viver em uma sociedade desse tipo, TEMOS QUE LUTAR, TEMOS QUE CONTINUAR, NÃO, EU NÃO VOU SAIR DO COLÉGIO, LÁ É MEU LUGAR TAMBÉM, NÓS TRAVESTIS E TRANSEXUAIS MERECEMOS AS MESMAS OPORTUNIDADES QUE AS PESSOAS CISGÊNEROS TEM.

Eu sou ANNE, EU SOU MULHER, EU SOU TRANSEXUAL E EU MEREÇO RESPEITO E DIGNIDADE.

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