Conheça o artista queer maranhense Gaybriel e seu projeto audiovisual ‘Éguas Experience’

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Com inspirações em artistas como Anitta e Pabllo Vittar, Gaybriel lançou a última etapa de seu projeto audiovisual e vem trasbordando as fronteiras de sua terra com sua arte, que ele usa também pra enfrentar o preconceito e superar as dificuldades diárias de ser uma artista independente.

Gabriel Sebastian, ou simplesmente Gaybriel, lançou dia 24/02 a música ‘Molhadinha’, última etapa do seu projeto audiovisual ‘Éguas Experience’, composto por 4 faixas. Este ciclo começou com ‘Senta na Minha Cara por Favor’, nova versão da sua primeira música oficial ‘Senta por Favor’, relançada em julho de 2019. No projeto também estão as faixas ‘Falta de Taka’ e ‘Tu Não Me Ama’, que contam com colaborações de outros artistas maranhenses independentes.

Fã de artistas do cenário pop desde criança, Gaybriel também teve que aprender a lidar com o preconceito muito cedo. Foi na escola primária que Gabriel começou a ser chamado de Gaybriel, de forma pejorativa, para diminuir sua arte e seu jeito de ser. Hoje, com 25 anos e pansexual, se considera um artista queer e faz questão de trazer a quebra de gênero em seus clipes e no seu visual em geral.

Nascido em São Luíz cidadão do mundo, sem endereço fixo, Gaybriel é poeta, escritor, cantor, dançarino e fotógrafo. Estas são apenas algumas das facetas deste multiartista, que encontra inspiração artística em diversos cantores internacionais, sem deixar de lado a sua regionalidade e a aposta no ritmo ‘brega’, base musical da sua obra. Confira abaixo como foi a nossa entrevista com o artista.

Quando começou a cantar?
“Comecei a cantar compondo. Eu sempre via o meu irmão, que também é LGBT, e sempre quis cantar, porque a gente sempre gostou das mesmas coisas e eu sempre consumi muito artista pop. Quando eu digo que comecei a cantar compondo é porque eu sempre fiz poesia, os 8 anos. Com 13 ou 14 anos comecei a musicar minha poesia, comecei a querer que aquela poesia se tornasse uma música. Queria trazer a minha poesia em forma de composição (musical), então comecei a cantar compondo. Depois comecei a frequentar o coral (da escola), antes disso eu já tinha cantado na escola, mas eu encontrei a minha voz compondo. Eu encontrei a minha voz falando o que eu tava sentindo, era a minha poesia expressando isso. Eu gosto muito daquela frase ‘quem canta os males espanta’, eu tava num momento muito ruim da minha vida, onde eu tava muito desencontrado sobre quem eu era, como pessoa e como artista, eu faço arte desde criança. Sempre estive no teatro, o teatro me levou pra dança, que me levou pra música”.

Você estudou canto?
“Participei do coral na escola. Continuei estudando a composição e depois comecei a estudar canto e ter os devidos cuidados com a voz. Nas aulas de canto descobri que meu professor era “bolsomion” escrevi ‘Falta de Taka’ e não pisei mais o pé lá”.

O que te inspirou a cantar?
“Foi a poesia, foi ver que existia poesia na música. Percebi isso com Cazuza, ouvia Cazuza e pensava ‘isso é poesia’. Sempre li muito e sempre gostei muito de poesia, sempre gostei muito de Fernando Pessoa. Com 13 ou 14 anos comecei a estudar composição. Eu juntava a música e via como eram as composições. Comecei a compor em inglês e depois em português, porque eu via que aquilo não era eu, eu tava querendo ser outra pessoa. Então eu comecei a compor em português e comecei a falar sobre o que estava a minha volta”.

Quais são suas inspirações artísticas?
“Tenho muitas inspirações artísticas, de Cacuria de Dona Teté, que é um grande ícone maranhense, passando por MC Loma, indo até Lady Gaga e Michael Jackson. Sempre fui muito fã de artistas que desafiavam o gênero como Madonna, Prince, David Bowie. Tudo isso me inspira, mas hoje em dia eu não busco inspiração somente na arte em si, mas também no cotidiano. As vezes estou conversando com uma pessoa e ela fala alguma coisa que vai me levar a escrever uma música. Tudo me inspira.”

Quantas músicas você tem lançadas?
“Tenho 5 músicas lançadas nas plataformas digitais: ‘Prazer Carnaval’, com participação do Musttache; ‘Senta na Minha Cara Por Favor’; ‘Falta de Taka’; e ‘Molhadinha’. Além da “Senta por Favor’, que foi a primeira música que lancei em 2018, depois regravei”.

Quais delas têm clipes?
“Todas elas têm clipe. Antes de eu me lançar como cantor eu já trabalhava com fotografia, desde meus 17 anos. Trazer o visual pra música e fazer um trabalho audiovisual é muito importante pra mim, porque une essas duas paixões que eu tenho, a música e a fotografia.

Com quem você já fez parceria?
“Yhago, na música ‘Tu Não Me Ama’; Wan Lo e Dani Bee, na ‘Molhadinha’; e Musttache, em ‘Prazer Carnaval’. Todos são artistas maranhenses e independentes”.

Você mesmo quem compõe as letras das suas músicas?
“Sim, é onde eu mais me encontro na música”.

Quem assina a produção musical das suas músicas?
O produtor geral é o Jokkay, que já trabalhou/produziu pra Kaya Conky e Danny Bond. Tivemos algumas ajudas como Fabregas (Campina grande) e Memel.

De onde vem o nome ‘Éguas Experience’?
“‘Éguas’ no ‘maranhês’ é uma gíria e significa ‘nossa’, ‘caramba’, então eu quis trazer essa sensasão de ‘grande experiência’, não só pra mim, mas pras pessoas que ouvem o trabalho”.

O que mudou na sua vida após começar a cantar?
“Mudou muita coisa. Agora eu me ponho como uma figura pública, então as pessoas vêm até mim e falam sobre o meu trabalho, um trabalho que não é só meu e compartilhar isso é muito importante. É muito gratificante saber que o trabalho não mais é só meu, é dos outros também. O ponto alto é saber que eu não estou mais sozinho. Mas também sei que existe um trabalho muito longo pra trilhar e puxar outras pessoas que ainda não foram puxadas”.

Quais seus próximos passos e desejos artísticos?
“Quero continuar fazendo música, fazendo meu trabalho audiovisual, carregando minhas duas paixões. Quero experimentar outros sons, continuar fazendo brega porque é o ritmo que eu escolhi cantar, mas trazer de outras formas. Vai vir muita coisa boa por aí, daqui pro final do ano eu estou com projetos novos”.

Como é ser um artista LGBT na sua cidade?
“É muito complicado, porque as pessoa sempre acham que tudo que eu estou fazendo é uma ‘distração’, como se eu não levasse a sério meu trabalho. Eu escutava muito ‘olha o outro ali querendo ser artista pop agora’. O fato da Pabllo Vittar ser do Maranhão é uma coisa muito interessante, porque fez muita gente daqui começar a investir nessa carreira, isso é muito importante. Existem muitos artistas LGBTs aqui.

Sua arte já transbordou as fronteiras do seu estado?
“Sim, eu fico muito feliz. Inclusive, às vezes eu vejo que eu tenho uma aceitação maior fora daqui. Já fiz show em São Paulo e Teresina. A força da internet me leva pra vários lugares do Brasil e eu espero que do mundo”

Percebo muitos elementos regionais nas suas músicas. É uma marca do seu trabalho? Você acha importante imprimir essa regionalidade?
“Com certeza é uma marca do meu trabalho. Eu sou do nordeste, quero trazer regionalidade e mostrar pro mundo. Quero ser um artista do nordeste, trazer o nordeste à tona. Trazer brega e coisas que eu sempre escutei a minha vida toda, pra mim é muito importante, porque é quem eu sou, é o que forma a minha arte. Ao mesmo tempo eu misturo tudo que eu consumi da cultura pop internacional. Pra mim são culturas que, somadas, são o resultado de quem eu sou como artista. É importante pra mim não só trazer a musicalidade do meu estado, da região nordeste, mas também trazer as palavras, a forma como se fala, trazer as coisas do nosso cotidiano, as coisas mais simples. Se são especiais pra mim, eu quero que sejam especiais pras pessoas também”.

Como você divulga e propaga a sua arte?
“Eu to sempre pedindo pras pessoas divulgarem o meu trabalho. Acredito muito na força das pessoas se identificarem com o meu trabalho e fazerem essa corrente”.

Já encontrou algum tipo de dificuldade ou preconceito por ser um artista LGBT?
“Muitas. Não só por ser um artista LGBT, mas ser artista independente, ainda mais quando se canta coisas que são explícitas. Já tentei gravar clipe em alguns lugares e as pessoas responsáveis pelo local perguntarem sobre a música e qual era a minha proposta como artista, quando sabiam do que se tratava, acabavam relutando em deixar gravar. Como eu sempre digo, ser artista independente é muito humilhante, porque a gente tá todo o tempo pedindo atenção pras pessoas pro nosso trabalho, tentando convencer as pessoas de que nosso trabalho é interessante e que pode somar. Todo dia é uma dificuldade”.

Primeiro você lançou ‘Senta por Favor’, em 2018, depois, você relançou em 2019 como ‘Senta na Minha Cara por Favor’. Por quê?
“Eu relancei porque eu queria trazer outra sonoridade pra música, eu acreditava que a música podia ser repaginada. Quando eu gravei pela primeira vez eu era muito imaturo musicalmente falando. Todo dia a gente tá amadurecendo com nosso trabalho e se descobrindo como artista, como músico. Melhorando, estudando mais. É uma missão”.

Como surgiu a letra de ‘Senta por Favor’?
“Eu tava em casa, compondo música e escutando beat de internet pra ver se saia alguma coisa de interessante, que ficasse na minha mente e eu passasse o dia todo cantando. Só gravo uma música se ela passar o dia todo na minha cabeça. Enquanto isso eu tava com um boy no telefone, ele perguntou o que estava fazendo e eu respondi que tava compondo, então ele falou ‘que fofo, compõe uma música pra mim’ e eu disse ‘senta na minha cara por favor”.

Gostaria de pedir pra deixar um recado pros leitores, por favor!
“Senta na Minha Cara por Favor pois está Faltando Taka e eu sei que Tu Não Me Ama mas vem ficar toda Molhadinha vem!”.

Arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br! #MandaAssunto