Conheça ‘Whandinha’, que viralizou neste carnaval

Foi o afronto viu!?

Este carnaval ficou um pouco mais divertido depois que um vídeo de uma “briga de dança” viralizou na internet. Filmado espontaneamente na primeira edição do ‘Bloquim’, um evento universitário que aconteceu no Parque de Peão em Barretos (SP), durante o carnaval, para integração de universidades brasileiras. Após ser disafiade por um rapaz, ‘Whandinha’, como é carinhosamente chamade na faculdade, roubou completamente a cena ao aceitar o “desafio”.

Whander Allípio (se pronuncia Uander) tem 20 anos e cursa Licenciatura e Bacharelado em Teatro na Universidade Federal de Uberlândia. Whander identifica-se como pessoa trans não binária androssexual (pessoas que sentem atração sexual pela masculinidade – expressão de gênero masculina, independentemente da identidade de gênero, ou seja, podem se atrair por qualquer gênero, desde que expresse masculinidade) e se orgulha muito de não esconder sua identidade de gênero nem sua orientação sexual de ninguém.

Foto: Felipe Borges Fotografia

Dentro da faculdade de teatro Whander coordena dois grupos de pesquisa, uma sobre a dança vogue e outro sobre a arte drag. Natural de Frutal, uma cidade com menos de 65 mil habitantes localizada no Triângulo Mineiro, ‘Whandinha’ faz questão de falar que cresceu como uma criança trans, “fui criada pelo meu pai e minha mãe, eles sempre souberam da minha orientação sexual e do meu gênero”. É justamente na sua criação que Whander encontra força para enfrentar o preconceito da sociedade e ser quem quer ser, “meu pai e minha mãe nunca me impuseram nada ‘isso é de homem ou isso é de mulher’, foi uma criação maravilhosa e eu devo isso a eles, eles deixaram que eu crescesse sendo esse ser que eu sou”.

Filmado no domingo de carnaval (23/02), o vídeo se tornou um viral no dia seguinte, após ter sido compartilhado num grupo no Facebook, e em outras redes sociais. Tivemos a oportunidade de conversar com Whander pra saber um pouco mais sobre sua vida e, é claro, sobre o vídeo, que foi filmado no domingo de carnaval, daí 23/02, e no dia seguinte já era assunto na internet. Confira então como foi nosso bate-papo.

Você tinha noção de que você se tornaria um viral?
“Jamais poderia imaginar que isso fosse acontecer. O próprio João [que gravou o vídeo] postou no Facebook, depois alguém lançou no Twitter, quando acordei tinha 1 milhão de visualizações, 50 mil curtidas, 10 mil ‘RTs’. Sempre estou expressando meu modo de dançar em todos os lugares que frequento. Na minha universidade as pessoas já me conheciam e já havia vários vídeos meus espalhados por aí, fazendo batalhas com as pessoas, porém esse foi especial”.

Foto: Felipe Borges Fotografia

O que mudou depois que o vídeo se tornou um viral?
“Algumas pessoas já me conheciam de outros eventos universitários que frequentei, mas quando cheguei ao evento após o vídeo a maioria das pessoas já tinha conhecimento, foi uma loucura. Meus ‘whats’ não parava, recebi diversas mensagens no Instagram, meus amigos me mandando ‘prints’ dos comentários, eu mesma estava bem emocionada com tudo isso”.

O que aconteceu depois que terminou a batalha?
“Depois do ‘combatchy’ as pessoas começaram a clamar pelo tão esperado beijo, e ele me deu um selinho molhado”.

Você sempre é quem você é, não importa onde?
“A forma como me expresso no mundo devo muito a educação que tive em minha casa, nunca precisei me esconder, me tornar outro pra agradar terceiros, sempre usei as coisas que gosto. Desse modo nunca deixei de ser eu mesma em todos os lugares que frequento, me relaciono bem nesses eventos que tem em sua maioria um grande público hetero, mostro a eles com beleza, educação, arte e ‘close’ que posso ocupar esses lugares, estar, conviver e me divertir entre eles, sem contagiar ninguém”.

Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser quem você é?
“Sou uma bicha preta, trans, efeminada, viva. Todas essas “minorias” me compõem como um ser singular fazendo com que eu passe por situações diversas, mas que ao longo do tempo venho vencendo essas batalhas com a garra e coragem de uma bicha preta. É impossível dizer que nunca sofri nada, já que esse preconceito vem tanto da sociedade heterossexual, como da comunidade LGBTQI+. Os corpos que são como o meu, pretos, trans, bicha, efeminados sempre querem ser apagados, inviabilizados na nossa sociedade se faz necessário essa resistência da comunidade LGBTQI+ negra”.

Você inventou aquela “coreô” na hora?
“Aquela dança é uma grande improvisação em que misturo diversos movimentos, compondo uma ação efêmera singular. Eu pratico vogue, sou coordenadora de um de pesquisa de vogue na faculdade”.

Foto: Felipe Borges Fotografia

Além de vogue, você dança outros ritmos?
“Além de conduzir processos de vogue, eu sou professora de linguagem e dança teatral. Eu estudei balé e fiz um ano de jazz”.

De onde vem tanta força e personalidade?
“A educação que eu tive fez com que eu crescesse com essa personalidade fortíssima. Por mais que a cidade [que nasci e cresci] seja pequena e ainda tenha muito preconceito, eu nunca deixei alguém me destruir ou ser abalada por alguém. A gente tem que se impor”.

Qual mensagem você gostaria de deixar quem está lendo sua história?
“Ame a você mesmo, seja quem você é, e nunca deixe ninguém dizer o que você deveria ou não deveria ser, porque você nasceu assim. Resista!”.

Arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br! #MandaAssunto