Roteirista carioca escreve carta tocante após achar fotos de tio bissexual vítima da Aids nos anos 1980: “Cheio de vida”

Foto: Álbum de família

O roteirista e ator carioca Felipe Cabral, de 34 anos, não chegou a conhecer seu tio, Paulo Cesar do Couto Cabral. Felipe nasceu em 29 de dezembro de 1985, seu tio morreu no dia seguinte, no dia 30. Ele encontrou em um álbum de família fotos guardadas do tio quando era aluno da London Film School, ao lado da mãe (vó de Felipe) e aproveitando, muito, a vida.

“Talvez eu tenha sido uma das últimas boas notícias que você teve”, escreveu Felipe na carta póstuma para seu tio, publicada nesta quinta (06/08). Pedimos e Felipe autorizou a reprodução da emocionante carta na íntegra, junto com as fotos do álbum de família!

Foto: Álbum de família

Confira a carta na íntegra

“Oi, tio! Ontem, aos meus 34 anos, eu finalmente te conheci. Perguntei pro meu pai, seu irmão mais velho, se ele tinha álbuns desse lado da família na semana passada. Para minha surpresa, ele tinha! Quatro caixas com álbuns e fotos. Estava guardando para quando eu ou meu irmão mais novo quiséssemos. Ontem uma dessas caixas chegou aqui em casa e foi uma emoção só.

O primeiro álbum tinha fotos da Vovó Jerusa. Minha avó, sua mãe! Linda, jovem, criança, mãe. Eu confesso que aqui, no meio da minha sala, eu comecei a chorar. É que ela também já se foi, em 2011, aos 88 anos. Pela primeira vez eu conheci minha vó antes de ela ser minha avó e antes de ser sua mãe. Mas eu vou fazer outro post pra falar dela também.

Minha surpresa foi ver um cara na frente da London Film School. Eu sempre escutei que você tinha feito Cinema e que tinha feito um curta. Seria você? Perguntei ao seu irmão, meu pai, e ele me confirmou. Paulo César. Logo eu achei uma lembrança celebrando seu aniversário e do meu pai. Estranhei um único convite e perguntei ao meu pai quando você tinha nascido. 29 de maio de 1952. Eu também nasci dia 29! De dezembro, mas no mesmo dia. Nesse ano, em 1985, você já estava bem doente. Eu nasci dia 29 às 14:45h e você faleceu dia 30 pela manhã.

Minha mãe me contou que você soube do meu nascimento. Talvez tenha sido uma das últimas boas notícias que você teve. Minha mãe disse que esperava que você me visitasse, mas não deu tempo. Essa foi a história que eu cresci ouvindo. O meu tio que morreu logo depois que eu nasci. Que era bissexual e fazia cinema. Que tinha sido vítima do início da epidemia da AIDS. Mas desde ontem eu encontrei várias fotos suas, lindas! Cheio de vida!

Eu já chorei muito, tio. Ontem e hoje. Hoje eu sou mais velho que você. Você nos deixou com 31 anos. Minha mãe disse que minha avó nunca mais foi a mesma. Ela e meu avô Walter ganharam um neto e perderam um filho. Meu pai ganhou um filho e perdeu o irmão. Não consigo nem imaginar perder meu irmão por agora. Ele está com 29 anos, quase a sua idade. Meu pai não conseguiu ir no seu enterro, ficou sozinho numa igreja. Minha avó só conseguiu me conhecer três meses depois.

Eu também tenho um irmão, o Guga. E finalmente descobri o nome do seu curta “E pluribus una”, de 1986. Vou tentar assistir ao filme com sua parceira de roteiro. Tá sendo impossível não pensar como seria nossa relação. Eu faço teatro e cinema também. Que coincidência, né? Imagina ter crescido com alguém desse meio na família. Eu fui o único. Quis a vida que eu seguisse parte dessa sua estrada também. Lindo, né?

Ainda tem muitas caixas com fotos pra eu abrir, mas ontem e hoje eu sinto que a gente tá finalmente se conhecendo. Você é lindo!! Tem um sorriso lindo! E tenho certeza que finalmente tá com sua mãe e seu pai. Manda um beijo enorme, eu amo demais eles e queria muito conversar com eles sobre essas fotos que encontrei!

Na verdade, eu queria voltar no tempo e te conhecer também. Se possível, mudar tudo e te deixar vivo aqui com a gente. Seu irmão, meu pai, ainda tá aqui comigo. São muitas emoções e muita história pra contar. Mas agora a gente já se apresentou. E tenho certeza que vamos seguir juntos também. Prazer, Felipe. Te amo!”

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Oi, tio! Ontem, aos meus 34 anos, eu finalmente te conheci. Perguntei pro meu pai, seu irmão mais velho, se ele tinha álbuns desse lado da família na semana passada. Para minha surpresa, ele tinha! Quatro caixas com álbuns e fotos. Estava guardando para quando eu ou meu irmão mais novo quiséssemos. Ontem uma dessas caixas chegou aqui em casa e foi uma emoção só. O primeiro álbum tinha fotos da Vovó Jerusa. Minha avó, sua mãe! Linda, jovem, criança, mãe. Eu confesso que aqui, no meio da minha sala, eu comecei a chorar. É que ela também já se foi, em 2011, aos 88 anos. Pela primeira vez eu conheci minha vó antes de ela ser minha avó e antes de ser sua mãe. Mas eu vou fazer outro post pra falar dela também. Minha surpresa foi ver um cara na frente da London Film School. Eu sempre escutei que você tinha feito Cinema e que tinha feito um curta. Seria você? Perguntei ao seu irmão, meu pai, e ele me confirmou. Logo eu achei uma lembrança celebrando seu aniversário e do meu pai. Estranhei um único convite e perguntei ao meu pai quando você tinha nascido. 29 de maio de 1952. Eu também nasci dia 29! De dezembro, mas no mesmo dia. Nesse ano, em 1985, você já estava bem doente. Eu nasci dia 29 às 14:45h e você faleceu dia 30 pela manhã. Minha mãe me contou que você soube do meu nascimento. Talvez tenha sido uma das últimas boas notícias que você teve. Minha mãe disse que esperava que você me visitasse, mas não deu tempo. Essa foi a história que eu cresci ouvindo. O meu tio que morreu logo depois que eu nasci. Que era bissexual e fazia cinema. Que tinha sido vítima do início da epidemia da AIDS. Mas desde ontem eu encontrei várias fotos suas, lindas! Cheio de vida! Eu já chorei muito, tio. Ontem e hoje. Hoje eu sou mais velho que você. Você nos deixou com 31 anos. Minha mãe disse que minha avó nunca mais foi a mesma. Ela e meu avô Walter ganharam um neto e perderam um filho. Meu pai ganhou um filho e perdeu o irmão. Não consigo nem imaginar perder meu irmão por agora. Ele está com 29 anos, quase a sua idade. Meu pai não conseguiu ir no seu enterro, ficou sozinho numa igreja. Minha avó só conseguiu me conhecer três meses depois. (SEGUE NOS COMENTÁRIOS…)

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Thiago Araujo é editor-chefe e criador do Pheeno! Referência no cenário pop LGBTQIA+ nacional, o carioca de 30 anos é jornalista e empresário do ramo do entretenimento, além de agitar as pistas como DJ mundo afora!