O que parecia apenas mais um canto escuro e esquecido da cidade virou palco de uma narrativa que mistura voyeurismo, moralismo e um certo fascínio mal disfarçado. A coluna Na Mira, do portal Metrópoles, resolveu lançar luz sobre um ponto de pegação gay no Distrito Federal que, pelo visto, não era tão secreto assim para quem frequenta a noite brasiliense. O título espalhafatoso e o tom quase novelesco da reportagem transformaram um trecho de asfalto atrás de um atacadão em cenário digno de conto erótico urbano — com direito a fila, expectativa e encontros rápidos sob o luar.
Na publicação, o local é descrito como um ponto onde carros param, homens se aproximam e a movimentação não deixa muito espaço para a imaginação. Em vez de um relato frio e objetivo, o texto aposta numa linguagem carregada de imagens e insinuações, como se estivesse mais interessado em provocar o leitor do que em apenas informar. A narrativa descreve pessoas “se aproximando sem cerimônia” e cenas que lembram mais literatura erótica de banca do que uma reportagem policial tradicional, o que ajuda a explicar por que a matéria viralizou.
O curioso é que, ao tentar expor um suposto “escândalo”, a reportagem acaba revelando algo que não é exatamente novidade para quem conhece a dinâmica da pegação em grandes cidades: espaços públicos e discretos sempre foram ocupados por corpos dissidentes em busca de encontro, desejo e anonimato. O texto do Metrópoles até menciona o risco legal das práticas em via pública, mas parece mais empenhado em narrar o “climinha” do local do que em discutir as condições que empurram parte da população LGBTQIA+ para esses espaços à margem.
No fim das contas, o que era para soar como denúncia ganha contornos de crônica sensacionalista com pitadas de erotização involuntária. Ao transformar um ponto de pegação em espetáculo, a reportagem escancara mais sobre o olhar de quem escreve — curioso, moralista e seduzido pelo próprio tema — do que propriamente sobre quem ocupa aquele pedaço de rua no DF. Entre o choque performático e o fetiche disfarçado, sobra a pergunta: quem, afinal, estava mais interessado nessa “fila” toda?



