Dez anos depois do ataque que marcou para sempre a história da comunidade LGBTQ+, os sobreviventes do massacre na boate Pulse, em Orlando, ainda tentam dar sentido ao que ficou. Em reportagem recente da CNN, três dessas pessoas revisitam a última década sem romantizar a ideia de superação. O que aparece nos relatos é algo bem mais complexo: dor que muda de forma, memória que insiste em voltar e caminhos muito diferentes para continuar vivendo após uma tragédia que nunca deixou de ser presente.
Na madrugada de 12 de junho de 2016, durante uma noite latina no mês do Orgulho, um atirador invadiu a casa noturna e abriu fogo contra o público. Foram 49 pessoas mortas e mais de 50 feridas — a maioria jovens, gays e latinas. Classificado pelo FBI como terrorismo e crime de ódio, o ataque virou símbolo de uma violência direcionada, mas também deixou perguntas que seguem sem resposta até hoje. Entre elas, críticas à atuação policial naquele dia, levantadas por familiares e sobreviventes que questionam se decisões tomadas durante a operação podem ter custado ainda mais vidas.
Um dos nomes mais conhecidos entre os sobreviventes é Brandon Wolf, que perdeu dois amigos próximos naquela noite, incluindo Christopher “Drew” Leinonen. Desde então, ele transformou o luto em mobilização, atuando em organizações como a Equality Florida e a Human Rights Campaign, além de fundar uma ONG em homenagem ao amigo. “A cura não é linear”, disse à CNN, resumindo um processo que, segundo ele, nunca se encerra completamente. Já Keinon Carter viveu uma recuperação marcada pelo silêncio e pela dor física: foram tantas cirurgias ao longo dos anos que ele parou de contar depois da 60ª. Os custos médicos ultrapassaram US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão), antes de serem finalmente perdoados pelo hospital — um detalhe que escancara uma dimensão pouco discutida da tragédia.
A história de Tiara Parker traz outro tipo de ferida: a culpa do sobrevivente. Ela estava na Pulse com a prima adolescente, Akyra Murray, que acabou morta — a vítima mais jovem do ataque. Baleada, Parker sobreviveu, mas passou anos lidando com o peso de ter ficado. Segundo ela, foi na maquiagem artística e no apoio a outras vítimas de violência que encontrou algum tipo de reconstrução. Uma década depois, enquanto sobreviventes revisitam o espaço da boate antes de sua demolição e a cidade ainda debate como preservar essa memória, a comunidade LGBTQ+ reafirma que a Pulse não é apenas passado. É uma história que segue em aberto, atravessada por luto, resistência e a insistência em não deixar que essas vidas sejam esquecidas.










