Home Destaque Protagonismo travesti: revista TIME reconhece trabalho de brasileira no combate a abusos...

Protagonismo travesti: revista TIME reconhece trabalho de brasileira no combate a abusos digitais e IA

8

A brasileira Veronyka Gimenes, cofundadora do grupo Código Não Binário, foi reconhecida pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo no campo da inteligência artificial (IA). Única brasileira entre os nomes selecionados, ela ganhou destaque internacional por defender um uso da tecnologia que vai além das aplicações comerciais: transformar ferramentas de inteligência artificial em instrumentos de enfrentamento ao discurso de ódio contra a população LGBTQIA+.

A iniciativa surgiu após um episódio que atingiu diretamente a equipe do Código Não Binário. Em 2024, um trecho do podcast queer “Entre Amigues”, que discutia a identidade transmasculina brasileira conhecida como “boyceta”, viralizou e acabou sendo utilizado como combustível para uma onda de ataques transfóbicos impulsionada por figuras da extrema-direita. A quantidade de comentários e mensagens ofensivas chegou a afetar a saúde mental da equipe. Para Gimenes, porém, aquele enorme volume de violência também poderia ser transformado em evidência. “Quero que as pessoas saibam que a tecnologia pode ser usada para revidar”, afirmou à Time.

Foi a partir dessa experiência que, em 2025, Gimenes e Amanda Claro desenvolveram a TybyrIA, um modelo de inteligência artificial de código aberto criado para identificar e classificar discursos de ódio anti-LGBTQIA+ em larga escala. O sistema permitiu organizar uma quantidade de mensagens que seria praticamente impossível de analisar manualmente e ajudou a reunir evidências utilizadas em uma ação civil pública contra Meta, Google, X e ByteDance. O processo pede cerca de US$ 20 milhões em indenização e também cobra das plataformas medidas mais efetivas e proativas para combater ataques motivados por orientação sexual e identidade de gênero.

Segundo documentos analisados pela Time, as empresas afirmam possuir políticas que proíbem conteúdos discriminatórios contra pessoas LGBTQIA+ e mecanismos para remover publicações que violem essas regras. Procuradas pela revista, a Meta não se manifestou, enquanto Google, X e ByteDance não responderam. Após o caso, Gimenes passou a concentrar parte de seu trabalho em ensinar comunidades a utilizar a inteligência artificial de maneira crítica, sem simplesmente rejeitar a tecnologia. Em parceria com o Código Não Binário, ela mantém um curso online sobre o tema, que já recebeu mais de 1.700 inscrições, defendendo que ferramentas abertas podem ser adaptadas para responder a problemas concretos enfrentados por grupos historicamente alvo de violência digital.