Criado como um espaço de encontro, celebração e produção cultural para mulheres lésbicas e para a comunidade LGBTQIA+, o Brejo Bar, no Flamengo, Zona Sul do Rio, viveu uma noite de medo justamente quando reunia dezenas de pessoas para celebrar uma das identidades que estão no centro de sua proposta. Durante o “Sarau do Brejo”, realizado na última quinta-feira (20), o estabelecimento foi alvo de um ataque que interrompeu a programação e provocou a dispersão dos cerca de 70 frequentadores que estavam no local. O episódio, que envolveu o lançamento de uma substância química e de garrafas com líquidos contra o bar, foi registrado na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), da Polícia Civil, e é tratado pelas proprietárias como um possível caso de lesbofobia.
O ataque aconteceu em meio a uma noite de poesia e música dedicada à visibilidade lésbica, reunindo majoritariamente mulheres. Na ocasião, a vereadora Monica Benicio (Psol) também estava no Brejo para entregar uma placa comemorativa ao estabelecimento com a frase “aqui quem manda é sapatão”. Em determinado momento, uma substância ainda não identificada foi lançada contra o espaço, provocando irritação nos olhos e na garganta e fazendo com que as pessoas precisassem deixar o ambiente. Garrafas contendo líquidos que aparentavam ser urina também teriam sido arremessadas contra o estabelecimento. “Ainda não sabemos exatamente qual substância foi utilizada e, justamente por isso, não queremos afirmar que se tratava de spray de pimenta ou gás lacrimogêneo. O que podemos dizer é que o efeito foi muito intenso e que houve necessidade de dispersão das pessoas que estavam no espaço”, afirmou Priscila Continentino, uma das sócias, ao jornal O Globo.
Inaugurado no segundo semestre de 2025, na Travessa dos Tamoios, o Brejo é comandado por Priscila e Vanessa Nascimento e nasceu com a proposta de oferecer um ambiente seguro para mulheres se encontrarem, trabalharem, produzirem cultura e celebrarem suas identidades. Para as empresárias, o contexto em que o ataque ocorreu levanta suspeitas de uma possível motivação lesbofóbica. “Para nós, o mais grave é que não estamos falando apenas de uma agressão contra um estabelecimento comercial. Felizmente, ninguém foi atingido ou ferido pelas garrafas. Mas havia clientes, artistas e trabalhadoras. Uma substância desconhecida foi lançada sobre um espaço cheio de pessoas”, afirmou Priscila. O Programa Estadual Rio Sem LGBTIfobia está prestando acolhimento às responsáveis pelo bar e acompanhando os desdobramentos da investigação junto à Decradi.
Quatro dias depois do episódio, o medo de que novos ataques possam acontecer permanece entre as funcionárias e frequentadoras do espaço. Nas redes sociais, clientes e apoiadores também passaram a publicar vídeos em solidariedade ao Brejo. “Naturalmente, (o ataque) gera medo e insegurança. Hoje, essa insegurança não é sentida apenas por nós, responsáveis pelo Brejo. Ela também alcança as mulheres que trabalham conosco e as pessoas que frequentam a casa”, relatou Priscila. Apesar da preocupação, as proprietárias afirmam que não pretendem antecipar conclusões e que irão respeitar o trabalho das autoridades. Ao mesmo tempo, reforçam que não querem permitir que a violência silencie o propósito que deu origem ao estabelecimento. Ainda não está definido se o Brejo manterá a programação prevista para o próximo sábado (29), quando será celebrado o Dia da Visibilidade Lésbica.











