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De pioneira a pioneira: quase 50 anos depois, travesti que inaugurou o posto de rainha de bateria vai coroar Anitta na Grande Rio

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A coroação de Anitta como nova rainha de bateria da Grande Rio, que acontece neste domingo (20), na quadra da escola, em Duque de Caxias, terá um significado especial para a história do Carnaval e da população trans e travesti. A cantora escolheu Eloína dos Leopardos, pioneira que entrou para a história como a primeira rainha de bateria do Carnaval, para colocar a coroa em sua cabeça. A informação foi confirmada pelo estilista Walério Araújo, amigo e parceiro de longa data de Eloína, em suas redes sociais.

A história de Eloína começou antes mesmo de ela se tornar a primeira rainha de bateria. Em 1975, ela participou de um concurso de baile de Carnaval usando um biquíni branco adornado com penas de faisão brancas e rosas e ficou em segundo lugar. Entre os presentes estava o figurinista Viriato Ferreira, parceiro de Joãosinho Trinta, que ficou impressionado com a travesti. Quando o carnavalesco, que havia acabado de chegar à Beija-Flor, procurava uma figura enigmática para o enredo “Sonhar com Rei Dá Leão”, Viriato lembrou dela. Eloína, que morava em Paris e costumava voltar ao Rio apenas durante o Carnaval, acabou sendo localizada e levada ao barracão da escola. Cerca de um mês antes do desfile, conheceu Joãosinho, que teria lhe prometido: “Não vai ter mulher que tirará o teu brilho. Você vai acabar com a festa”.

No dia do desfile de 1976, Joãosinho Trinta fez questão de esconder Eloína até o último momento. Ela chegou à Avenida Presidente Vargas usando um roupão para não ser vista antes da hora e só revelou o figurino quando a Beija-Flor entrou na avenida. Então, o carnavalesco a colocou à frente dos ritmistas, criando naquele instante uma posição que ainda não existia da maneira como seria conhecida nas décadas seguintes. A presença de Eloína provocou tamanha repercussão que até o então prefeito do Rio, Marcos Tamoyo, teria mandado a escola parar para descobrir quem era aquela mulher à frente da bateria. No dia seguinte, ela já era o grande acontecimento do Carnaval e passou a estampar as principais revistas da época. Eloína permaneceu na Beija-Flor até 1978, acompanhando a escola em três títulos consecutivos.

Quase cinco décadas depois, é justamente essa mulher que entregará a coroa a Anitta, em um momento que conecta duas gerações de protagonismo no Carnaval. A escolha ganha uma dimensão ainda mais especial por se tratar de Eloína, uma travesti que abriu caminho para que o posto de rainha de bateria se transformasse em um dos símbolos mais conhecidos das escolas de samba. Para Anitta, que há anos mantém uma relação próxima com o público LGBTQIA+ e construiu parte importante de sua trajetória junto dessa comunidade, receber a coroa das mãos de uma pioneira como Eloína cria uma imagem que ultrapassa a própria cerimônia. Em vez de apenas assumir um posto, a cantora terá a oportunidade de receber a faixa e a coroa de quem ajudou a inventar a tradição que ela agora passa a representar.