O avanço dos influenciadores virtuais no ecossistema digital ganhou uma nova camada de complexidade com a ascensão de perfis gays gerados por inteligência artificial: corpos idealizados, narrativas sedutoras e uma estética cuidadosamente calibrada para performar desejo. Em um post recente, o pesquisador em segurança pública Pablo Nunes chama atenção para esse fenômeno ao apontar que esses avatares não surgem do acaso, mas de uma lógica de mercado que entende profundamente o que engaja. “Criadores de fora da comunidade repovoam com avatares os mesmos espaços que criadores LGBTQ+ reais levaram anos construindo”, escreve.
A investigação dialoga com reportagens como a da revista estadunidense WIRED, que revela os bastidores desses perfis ao afirmar que muitos dos chamados “armadilhas de desejo gay com IA” são operados por homens que não necessariamente pertencem à comunidade que representam, mas dominam ferramentas e tendências de consumo. Nesse contexto, a autenticidade deixa de ser central e dá lugar à performance algorítmica do desejo. Como sintetiza Nunes, “criar um influenciador gay de IA não exige ser gay, conhecer a cultura ou ter vivido o que você vai vender”, evidenciando um deslocamento entre experiência vivida e representação digital.
Esse cenário não é totalmente novo. A discussão sobre influenciadores virtuais já vinha sendo levantada desde casos como o de Lil Miquela, descrita pela Forbes como parte de uma “falsificação problemática” que tensiona os limites entre o real e o fabricado. O diferencial agora está na apropriação de códigos específicos de identidade e desejo dentro de nichos como o público gay masculino. Ao transformar esses códigos em produto, essas contas passam a monetizar não apenas estética, mas pertencimento — ainda que artificial. Como aponta o post, trata-se de “monetizar o desejo de uma comunidade sem pertencer a ela”.
As implicações vão além do mercado publicitário e tocam dimensões sociais profundas. Dados da Hopelab indicam que criadores LGBTQ+ reais têm papel importante na redução da solidão entre jovens, funcionando como pontos de identificação e acolhimento. Nesse sentido, a substituição por avatares levanta uma questão crítica: o que se perde quando essa conexão é mediada por personagens que não existem? Nunes resume esse dilema ao afirmar que “quem controla a imagem do homem gay perfeito também controla o que essa comunidade aprende a desejar”, apontando para um sistema onde visibilidade, afeto e consumo se entrelaçam, nem sempre de forma transparente ou ética.
Ver essa foto no Instagram
Ver essa foto no Instagram










