Pessoas trans com emprego formal ainda são minoria

Preconceito contra a dignidade!

As pessoas trans ainda enfrentam muito preconceito em ambientes educacionais e corporativos, o que traz mais dificuldades para que essa população ingresse no mercado de trabalho formal.

De acordo com um levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 124 pessoas trans foram assassinadas ao longo do ano de 2019. O Brasil ainda é o país que mais mata transexuais no mundo. A expectativa de vida de transexuais é de 35 anos.

Um número pequeno desta população consegue fugir destes números sobrevivendo e conseguindo sua dignidade tendo acesso a um emprego formal, assegurado no Art. 6º da Constituição do Brasil.

Ariel Ludovica

Ariel Ludovica, de 23 anos, é um dos raros exemplos de pessoas trans que conseguiram uma oportunidade de emprego formal. Ela é atendente numa assistência técnica especializada em todo tipo de celular. Além disso, Ariel também atua no setor administrativo da loja, por ter um curso profissionalizante na área.

“Conseguir trabalho sempre foi muito complicado. Eu, mesmo nova, já ralei muito nessa vida. Fui atendente de lanchonete e não tinha nem vida social porque eu trabalhava a noite toda, dormia um pouco até o início da manhã e já precisava acordar para levar meu irmão na escola e depois ir para a minha aula”, conta a jovem.

Ariel já foi vendedora de jogos de videogame e também já trabalhou como entregadora de panfletos em um escritório dentário, o que a obrigava a ficar horas em pé. “Querendo ou não, apesar de difíceis, esses trabalhos me ajudaram a não entrar num mundo onde muitas vão parar. E hoje eu estou aqui em um trabalho digno. A caminhada foi difícil, mas no meu atual emprego eu já tive várias oportunidades para crescer”, comenta.

Ela diz que o dono da loja a “adotou com todo carinho que uma vendedora poderia receber”, e afirma. “Sou tratada e respeitada como uma verdadeira mulher que sou”.

“Quero muito fazer um curso de enfermagem que pretendo começar em uns dois meses. Depois de obter o diploma, eu planejo fazer um curso da polícia federal para detetive criminal”, conta Ariel.

A jovem comenta ainda que boa parte das pessoas trans que ela conhece não trabalha em um emprego formal com carteira assinada. “As oportunidades são tão poucas que acho que só 1% de todas as minhas conhecidas não estão na prostituição. É uma dura realidade. Eu mesma já perdi muita vaga só por ser quem eu sou. A verdade é que essas mulheres estão na prostituição não por opção, mas pela falta dela”, afirma Ariel.

Renata Ferreira, 47 anos, conta que é errada a ideia de que salões de beleza são lugares mais amigáveis para mulheres trans e travestis. “Eu sofro muito preconceito no meu trabalho. Muitas vezes as pessoas, homens e mulheres, não querem ser atendidas por mim, só pelo fato de eu ser trans. Sem nem mesmo ter visto meu trabalho. Ou então me tratam com pronomes masculinos, mesmo eu sendo mulher”, conta ela.

Renata diz donos do salão onde ela trabalha não fazem nada quando presenciam algum ato preconceituoso e mesmo assim ela precisa continuar trabalhando, pois é a forma que tem de manter seu sustento. Por tanto, sofrer discriminação calada se tornou um praticamente um ‘requisito’ para o tipo de vaga que ela ocupa.

“Apesar disso, eu tenho um sonho de um dia abrir meu próprio negócio. É esse o meu maior sonho. Eu faço administração e tenho bastante contato com o empreendedorismo. Eu gostaria muito de realizar esse desejo”, conta a cabeleireira.

Joyce Alves

Joyce Alves, presidente da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Estado do Amazonas (Assotram) convive de perto com esta situação. “Para você ter uma ideia, de todas as associadas e outras mulheres que eu conheço, eu só de lembro de uma que trabalha de carteira assinada. As outras muitas vezes têm que trabalhar na informalidade mesmo”, comenta.

A Assotram desenvolve dois tipos de projetos relacionados ao trabalho com mulheres trans: oferece cursos por meio de parcerias com instituições; e auxilia potenciais trabalhadores a criar seus currículos e enviá-los para as empresas contratantes.

“Boa parte delas, como eu disse, vive na informalidade. Então o nosso apoio é mais voltado ao desenvolvimento profissional delas como autônomas. Um exemplo é curso de empreendedorismo, para que elas possam ter maior domínio das atividades que realizam, como em salão de beleza”, explica Joyce.

A página ‘Transempregos’, no Facebook, tem como objetivo estreitar o diálogo entre travestis, transexuais e transgêneros e empresas de todo o país. De acordo com o site, o grupo é o maior banco de dados de currículos de pessoas trans do Brasil.

O ‘Transempregos’, além de disponibilizar vagas de empregos para cada estado do país, disponibiliza, também, cursos e atividades on-line pra população trans. As ofertas variam bastante de área, podendo ir da tecnológica, saúde, beleza e até atuação em cinema.

As empresas, chamadas “trans friendly”, que numa tradução livre significa “amigáveis para trans”, que buscam esta inclusão podem anunciar vagas no site após preencher um cadastro. As próprias empresas acolheram o termo e fazem questão de assumir a bandeira da diversidade. Algumas parcerias mais fortes com a ‘Transempregos’ são o Banco do Brasil, Burguer King e C&A.

Arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br! #MandaAssunto