Conhecida como ‘rainha barbada’, drag carioca Ohana está de volta ao cenário musical

Drag é arte, é superação, é resistência!

Ohana Azalee, conhecida drag da cena carioca, está de volta. Após se afastar da carreira drag pra cuidar de sua saúde ela volta mais sexy que nunca e esbanjando sua barba com muito orgulho. Foi através da arte drag que o Wallace (31) encontrou sua maneira para quebrar tabus os próprios e é nesta mesma arte que vem encontrando força pra superar as dificuldades que enfrentou e seguir em diante.

Ohana passou a ganhar mais visibilidade, no início de 2018, depois de lançar nas plataformas digitais sua primeira música, ‘Piridrag’, acompanhada do clipe, que teve a participação de outras 18 drags do Rio. Porém, no final do mesmo ano, Wallace precisou passar por duas cirurgias de emergência que quase o levaram à morte. Após um ano longe da arte drag, Wallace e Ohana passaram por algumas mudanças e agora a ‘rainha barbada’ volta com força total, em uma nova roupagem, mas sem deixar de exibir com muito orgulho a marca registrada: a barba.

Após dar algumas dicas, em suas redes sociais, de que Ohana estava realmente se preparando para um cameback, na última sexta-feira (13/03) a artista postou um vídeo em seu IGTV de um cover de ‘Sedanapo’, da Gloria Groove. No repertório de seus novos vídeos também estão músicas de artistas como Sia, Alicia Keys, Malía e Jão, que serão postados semanalmente no IGTV da cantora, às quintas-feiras.

Confira como foi o nosso bate-papo com Ohana, pra saber tudo sobre este comebacke babadeiro:

Como gosta de ser chamada?
“Meu nome é Ohana Azalee, gosto de ser chamada de Ohana mesmo e meu único apelido é gostosa, é como as pessoas costumam me chamar na rua (risos)”.

Onde Ohana nasceu?
“Nasci nas lojinhas de maquiagem baratas da Uruguaiana”.

Com qual gênero você se identifica e qual sua orientação sexual?
“O Wallace é um homem se gay e isso não é segredo pra ninguém, já a Ohana não tem uma sexualidade definida porque ela não é bem um indivíduo sexual, ela é uma expressão artística, inclusive a Ohana ainda é virgem, acredita? Nunca transei montada! Já a minha orientação sexual é POC mesmo”.

Quando começou a fazer drag?
“Comecei oficialmente em 2016, mas me monto desde 2015, só não tinha coragem de sair de casa montada”.

Por que começou a fazer drag?
“A drag pra mim surgiu como uma forma de fluir entre os gêneros e me libertar de preconceitos pessoais que a gente carrega como herança dessa nossa sociedade misógina e transfóbica”.

Quais as inspirações artísticas da sua drag?
“Minha drag tem muita inspiração em divas do R&B, Hip-hop e POP”.

Quando, como e por que começou a cantar?
“Comecei na infância na igreja, por que eu sentia uma vontade muito grande de me expressar artisticamente e a música era meu escape de todo bullying e repressão que uma ‘criança viada’ pode sofrer”.

Já fez, ou ainda faz aula de canto?
“Fiz por muitos anos, não faço mais, mas tenho um preparador vocal”.

O que te levou a se lançar no mercado fonográfico?
“O desejo de mostrar minha arte pro mundo e a vontade de ser a Beyoncé”.

Por que Ohana deu um tempo?
“Ohana precisou de um tempo pra cuidar da saúde, do psicólogo e também da espiritualidade. Às vezes a correria do dia a dia faz a gente se descuidar do básico, nós mesmos”.

O que te trouxe de volta?
“A mesma necessidade de se expressar e dividir a sua verdade com o mundo que fez aquele menininho de cinco anos começar a cantar no coral da igreja”.

Por que desta ruptura com a fase ‘Piridrag’?
“’Piridrag’ é ainda uma parte da Ohana, mas ela faz parte de uma era Ohana que era mais de autoconhecimento, de explorar suas possibilidades, de chocar e ver o circo pegar fogo. Agora eu acho que eu tenho muito mais vontade de comunicar e agregar algo pra nossa comunidade do que simplesmente lançar hits, não que eu não queira lançar hits, mas não é mais o foco. Mas eu nunca vou romper com ‘Piridrag’, eu só não me sinto mais representada por ela”.

Quais suas intenções artísticas pra esta nova fase?
“Ser uma hitmaker (sim, e não é ser contraditória), mas usar toda visibilidade e posicionamento pra comunicar e dar visibilidade pra outras pessoas LGBTQI+ nesse mercado e em qualquer outro”.

Vem música autoral por aí?
“Com certeza vem, mas não por agora. Estou focada nesse trabalho de covers que eu tô lançando e com muitas expectativas de como esse trabalho vai crescer e criar vida”.

Qual é a ideia destes vídeos de covers?
“A ideia principal é fazer música de qualidade e mostrar meu trabalho pro mundo mesmo”.

Por que investir em covers de músicas POP?
“Porque pra um artista que está iniciando nesse mercado é muito difícil conquistar um público sem ter um repertório autoral reconhecido, então a música cover me possibilita mostrar o que eu gosto e do que eu sou capaz”.

Pra você, qual a relevância artista de se impor como ‘drag barbada’, diante à cena drag atual?
“Atualmente ser uma drag barbada é uma tarefa bem mais fácil. Quando eu cheguei na cena, era um tabu, ser feminina era regra, mas com o tempo, dentro da própria cena, foi se normalizando ser drag barbada, drags conceituais, drags que são mulheres cisgênero. Não existe mais esse tabu, drag é expressão artística, e cada artista se expressa a sua maneira, então a barba se mantém como um símbolo de resistência, mas não quer dizer que seja algo definitivo (fica a dica, risos)”.

Já que você voltou toda repagada, por que fazer questão de manter a barba?
“Faço questão de manter a barba porque a Ohana pra mim é uma arte que me permite fluir entre os símbolos de gêneros, através dela eu quebro até pra mim os conceitos de masculino e feminino como nos é imposto. Ser uma drag barbada é a minha expressão artística, tem motivação pessoal, mas não definitiva, hoje tenho, amanhã posso não ter, mas serei sempre rainha barbada porque me sinto precursora, mesmo não tendo sido a primeira, me submeti a julgamentos até de competência por ser barbada, então foi um desafio que eu encarei e venci, então eu sou a rainha barbada, e quero mostrar essa arte pra todos quantos eu conseguir e que sejam muitos, centenas, milhares, milhões”.

Seu cameback extra sexy é proposital ou consequência do que aconteceu? Pode-se dizer que é um sinal de 100% de superação?
“Sim, é proposital, eu decidi ser gostosa de outra forma (porque vamos combinar né, gostosa eu sempre fui, é meu estado de espírito) e também é um sinal de superação, não superação pela mudança da forma física, eu não ligo pra isso (não mais), mas superação das minhas próprias inseguranças, eu não queria emagrecer pra me sentir bem, sempre tive a ideia que só tentaria emagrecer quando aprendesse a me amar de verdade e foi assim que aconteceu. Quando eu comecei a me sentir a vontade a sair por aí mostrando muita pele independente do corpo que eu tinha eu percebi que poderia passar por qualquer mudança física que só serviria para as pessoas me acharem bonitas, porque eu mesma, já me amava de qualquer forma, e foi então que eu comecei a buscar um corpo mais “comercial””.

Qual mensagem você gostaria de deixar pra quem estiver lendo?
“Cuidem-se, cuidem uns dos outros, sejam resistência, independente de como vocês de enxergam ou consideram, ser de verdade não tem a ver com anatomia, ser de verdade tem a ver com como você se vê, então se joga! Beijos da barbada!”

Arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br! #MandaAssunto