Polícia Militar cancela tradicional bloco LGBTQ+ carioca, durante sua apresentação

Até quando seremos censurados por nossa forma de amar?

Já tradicional no carnaval carioca, o bloco LGBTQ+ Candybloco, liderado pelo artista Beni Falcone, teve sua apresentação cancelada pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), nesta quarta-feira, dia 25/02. Esta seria a primeira vez que o bloco aconteceria na rua, em local público e totalmente aberto aos foliões.

A noite que era pra ter sido marcada por alegria e orgulho, acabou terminando em uma grande frustração após o anfitrião Beni Falcone anunciar ao microfone o cancelamento do bloco, que já estava em pleno acontecimento por mais de uma hora. Inclusive, segundo a revista Veja Rio, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro iria “abrir um bandeirão de 30 metros com as cores do arco-íris” durante o evento, com total apoio e consentimento da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS-Rio). “O Carnaval não é só uma festa, faz parte da cultura, usa a alegria e o humor para fazer crítica social e o uso da celebração para dar visibilidade para causas importantes“ afirmou Nélio Georgina, coordenador especial da Diversidade Sexual.

Segundo a organização do evento, a interdição do mesmo, através da PMERJ, foi obrigatória, para a segurança dos próprios foliões que, supostamente, estavam invadindo o Túnel Marcello Alencar 450 provocando risco às pessoas e aos motoristas. Os organizadores garantem que tinham todos os documentos necessários para o acontecimento do bloco, que não sairia do local, ou seja, não haveria cortejo, e que também seguiram toda a burocracia necessária para que se tornasse viável a realização do evento, incluindo os itens de segurança.

O Movimento Unificado Pela Diversidade encarou o acontecido como um grave atentado à população LGBTQ+. Após a oficialização do cancelamento do bloco, os organizadores publicaram uma nota oficial em suas redes sociais, que diz:

“É com muito pesar, que depois de termos ocupado a Marechal Âncora com nossos corpos e cores, prontos para a nossa primeira lacração na rua, informamos que fomos surpreendidos com a suspensão da nossa apresentação, após 1 hora e meia de concentração.
Estávamos respaldados com toda a documentação e cumprimos o processo burocrático de autorização do início ao fim. Estamos devastados, mas hoje vocês nos mostraram que estamos construindo uma tribo que vai ocupar as ruas, e isso muito em breve vai acontecer.
Certos de que podemos contar com vocês, voltamos a dizer: deixa eles pensarem que somos apenas um bloco de carnaval.
Continuamos na rua. O carnaval é uma das mais belas formas de protesto que temos! A nossa alegria eles não podem interromper, e tampouco a nossa música calar.”

Assim que soube do acontecido, a cantora Lexa convidou os foliões do Candybloco para sua apresentação que aconteceu na região portuária da cidade. Talvez alguns seguidores do bloco tenha encontrado conforto no convite da cantora, porém, a grande maioria, assim como os organizadores, ainda está frustrada e querendo entender o real motivo do cancelamento do evento.

Após um ano onde a arte, em todas as suas formas de expressão, tem sofrido sucessivos boicotes explícitos, ainda mais quando envolve a comunidade LGBTQ+ (não dá mais para passar o pano e chamar o que está acontecendo de ‘censura velada’) o carnaval de 2020 seria um dos mais cerceados de todos os tempos, no que se referia ao quantitativo de blocos LGBTQ+. Este, o Candybloco, que era uma das poucas opções que legalmente restaram para o público deste seguimento, teve seu cancelamento efetivado horas depois de sua concentração já ter começado, mesmo quando já reunia milhares de pessoas no centro do Rio de Janeiro.

O que nos resta agora, além da falta de explicações, é a esperança de que dias melhores cheguem logo e que as pessoas consigam escolher melhor nossos governantes daqui pra frente. Que possamos nos apoiar nas palavras de Beni Falcone para resistir e persistir neste momento tão sombrio que estamos vivendo: “Pra mim, o Candybloco é uma celebração de quem somos e das diversas possibilidades de sermos. É um movimento de amor, de afirmação e, em tempos tão esquisitos, de resistência”.

Arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br! #MandaAssunto